Por que a extrema direita cresce no mundo, segundo este estudioso

João Paulo Charleaux – O Reino Unido, a França e a Alemanha são três exemplos recentes de países centrais na política europeia que viram a expressão eleitoral da extrema direita crescer nos últimos meses.

Primeiro, a retórica contra a imigração e contra a integração comunitária europeia levou a maioria dos eleitores ingleses a decidir, em junho de 2016, a favor do Brexit – termo que, em inglês, une as palavras “British” (britânica) e “exit” (saída), para se referir à decisão de deixar a União Europeia.

Quase um ano depois, na França, em maio de 2017, a candidata de extrema direita Marine Le Pen terminou a eleição presidencial em segundo lugar, com 34,5% dos votos. Apesar da derrota para o atual presidente, Emmanuel Macron, o desempenho do partido de Le Pen, a Frente Nacional, representou um marco para o conservadorismo europeu.

Por fim, a Alemanha viu pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, um partido de extrema direita conquistar o direito de ter representantes no parlamento. A AfD (Alternativa para a Alemanha) recebeu na eleição do dia 24 de setembro 12,6% dos votos, tornando-se a terceira força do parlamento, uma marca histórica.

O avanço da extrema direita europeia ocorre na esteira da inesperada vitória do republicano Donald Trump nas eleições presidenciais americanas de 2016. Com um discurso sexista, xenófobo e belicista, Trump encorajou movimentos semelhantes em todo mundo.

Até mesmo o Brasil viu crescer, na figura do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), a agenda de extrema direita, marcada sobretudo pelo enaltecimento do uso da força – até mesmo da tortura praticada durante a ditadura militar (1964-1985) – e de uma agenda moralista que prega, por exemplo, a chamada “cura gay”.

Para definir o perfil desse movimento político em ascensão no mundo e as razões de seu crescimento, o Nexo entrevistou, por e-mail, o professor Carlos Gustavo Poggio, doutor em estudos internacionais, professor de relações internacionais na PUC de São Paulo e autor de “O Pensamento Neoconservador em Política Externa dos EUA”.

O que é extrema direita na política? Que propostas ou ideias caracterizam esse setor?

Carlos Gustavo Poggio Se pensarmos as três importantes tradições políticas no ocidente como sendo o liberalismo, o conservadorismo e o socialismo, todas elas possuem versões que se encaixam dentro da lógica democrática moderna. As variações extremistas dessas tradições tendem a se afastar das regras democráticas que conhecemos. No caso da extrema direita, na forma como é usada no vocabulário político atual, podemos entender como uma versão extremada do conservadorismo, que pode ser mais bem classificada como reacionária.

Os grupos que aderem à essa perspectiva demonstram um desconforto extremo com a modernidade. Dessa forma, buscam mobilizar o aparato estatal como forma de reação, visando a retornar a um passado nostálgico pelo uso da força, se necessário. Apesar de haver variações, um aspecto comum que distingue os movimentos de extrema direita é uma combinação de autoritarismo com o que podemos chamar de nativismo, ou seja, a ideia de que os interesses dos habitantes nativos de um determinado país devem se sobrepor aos interesses de imigrantes, por exemplo, que são vistos como uma ameaça não apenas econômica, mas também cultural. Tanto o autoritarismo como o nativismo são incompatíveis com a democracia moderna, razão pela qual a extrema direita acaba se afastando dessa órbita política [da democracia moderna].

É possível afirmar que a extrema direita está crescendo no mundo hoje? Se cresce, quais as razões?

Carlos Gustavo Poggio É possível afirmar que movimentos reacionários de direita estão em crescimento no mundo de hoje. Podemos apontar três razões principais, uma reforçando a outra.

A primeira é de ordem econômica, derivada das transformações na estrutura econômica dos países desenvolvidos que têm feito desaparecer os empregos que exigem menor grau de instrução. Isso tem aprofundado a distância não apenas econômica mas espacial e cultural entre o topo e a base da pirâmide social nesses países, o que ajuda a reforçar os impactos de uma segunda razão, que me parece a mais importante: o processo de transição demográfica em países desenvolvidos, derivado da baixa taxa de natalidade combinada com altos índices de imigração. Nesse processo, “maiorias” vão gradualmente tornando-se “minorias”, o que gera um sentimento de deslocamento econômico-social e de perda de laços identitários, abrindo espaço para forças políticas que articulam uma narrativa nativista, construindo o estrangeiro como inimigo. Finalmente, uma terceira razão é a ascensão das redes sociais e de novas formas de consumo e de produção de informação, o que permitiu a difusão de ideias que de outra forma seriam bloqueadas pelos canais de comunicação tradicionais.

Quais podem ser as consequências desse crescimento?

Carlos Gustavo Poggio Já estamos observando algumas delas. A primeira, que me parece ser a tendência mais clara, é a fragmentação da estrutura partidária nas democracias modernas, uma vez que por muito tempo essa tendência política permaneceu marginalizada nesses lugares e sua mensagem encontra ecos em apoiadores de praticamente todos os partidos tradicionais.

A segunda é um aprofundamento no processo de polarização política uma vez que, com o crescimento dos extremos, sobra pouco espaço para negociação entre forças centristas. O crescimento da extrema direita tende a levar ao crescimento da extrema esquerda, e vice-versa. A terceira, que deriva das outras duas, é um declínio considerável na qualidade das democracias, uma vez que os espaços de consenso e negociação são gradualmente esvaziados.

Como o Brasil se insere nesse contexto? Segue um padrão, ou tem particularidades muito expressivas?

Carlos Gustavo Poggio O Brasil não está imune a esse processo, visto que muitas das razões que apontamos para o crescimento desses movimentos estão presentes no país. No entanto, é importante destacar que a principal razão dentre as três apontadas anteriormente não está presente no Brasil. Ou seja, não somos um país com baixas taxas de natalidade e altas taxas de imigração, o que significa que, a despeito de algumas manifestações ainda isoladas, movimentos de caráter nativista têm pouco espaço para prosperar por aqui. É por esse motivo que esse fenômeno é mais evidente nos países desenvolvidos, que combinam todos os três fatores apontados.

Como o mundo deve lidar com movimentos que fazem uso de liberdades democráticas para atacar a própria essência da democracia e dos direitos humanos?

Carlos Gustavo Poggio Cada país deverá buscar suas próprias respostas para lidar com esses movimentos. Aqueles que têm instituições mais sólidas tendem a resistir melhor a grupos com tendências antidemocráticas que eventualmente capturem o poder. No entanto é importante destacar que a ascensão desses movimentos é reflexo de mudanças profundas que devem testar a resiliência dessas instituições. As novas gerações que chegarem ao poder nos próximos anos terão, portanto, uma grande responsabilidade no sentido de encontrar formas de proteger os valores democráticos num contexto de polarização política, fragmentação ideológica e transformações econômico-sociais. Não será tarefa fácil.

https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/09/29/Por-que-a-extrema-direita-cresce-no-mundo-segundo-este-estudioso

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