MBL promove intolerância e intimidação de adversários

Pablo Ortellado – Uma exposição sobre diversidade sexual no Santander Cultural em Porto Alegre, com obras de Leonilson, Adriana Varejão, Lygia Clark e Portinari foi fechada no último domingo (10) depois de uma campanha iniciada pelo MBL que a acusou de promover a pedofilia e a pornografia. O Santander decidiu suspender a exposição depois de uma chuva de mensagens de protesto e de ativistas de direita atacarem e agredirem verbalmente artistas e visitantes, chamando-os de tarados, pedófilos e pervertidos.

O MBL nasceu como um pequeno agrupamento liberal, originário do movimento estudantil e quando se lançou na vida pública, se dizia apartidário. Mas depois de convocar e liderar as manifestações anticorrupção, se converteu em uma ampla rede de ativistas de direita, uma página de Facebook com grande audiência e uma força política emergente que está estreitando vínculos com os partidos políticos tradicionais. Recentemente, trocou a ênfase do liberalismo pelas guerras culturais e tem empregado contra os adversários odiosas formas de agressão moral e intimidação.

As principais lideranças do MBL vieram do movimento estudantil de São Paulo e se encontraram em 2014 na organização da campanha a deputado estadual de Paulo Batista, o liberal do “raio privatizador”. Inspirados pela esquerda cultural, queriam dar uma roupagem moderna e jovial ao liberalismo, tornando-o atraente para as novas gerações.

Quando ganharam proeminência pela primeira vez, em 2015, recusavam-se a se pronunciar sobre temas morais como o aborto ou legalização das drogas, evitando dividir o público que queriam atrair para o liberalismo. Mais tarde, porém, descobriram que as chamadas “guerras culturais” eram um ótimo instrumento de mobilização e que por meio do discurso punitivista e contrário aos movimentos feminista, negro e LGBTT podiam atrair conservadores morais para a causa liberal. Abraçaram então pautas como o aumento do encarceramento, o combate às cotas raciais e a Escola Sem Partido.

Assim, de face jovem que revigoraria o liberalismo brasileiro se converteram rapidamente numa espécie de tropa de choque conservadora. Nada mais sintomático dessa conversão do que ainda carregar o “livre” no nome ao mesmo tempo em que celebram a censura a uma exposição artística.

As táticas de intimidação que foram usadas na exposição em Porto Alegre não são novidade para o grupo. Eles tem sistematicamente agredido e intimidado jornalistas, professores, estudantes e qualquer tipo de adversário.

Uma organização jornalística que apura a veracidade de informações (“fact-checking”) solicitou a fonte dos dados de uma campanha do MBL e recebeu como resposta a foto de um pênis de borracha com a inscrição “check this”; quando o ministro Teori Zavascki remeteu os processos de Lula para o STF, manifestantes ligados ao MBL foram até a porta da sua casa e o chamaram de “bolivariano”; uma professora que daria curso sobre sociologia dos movimentos sociais na USP teve que acionar a segurança para poder iniciar o seu curso depois que o MBL publicou sua foto e a acusou de fazer uma “pós-graduação em protestos”; pais de estudantes que ocupavam escolas em Curitiba tiveram que fazer vigílias depois que ativistas adultos ligados ao MBL iniciaram campanhas de “desocupação” e fizeram ameaças às crianças e adolescentes; jornalistas da CBN, UOL, Globo, Catraca Livre e Buzzfeed foram atacados e intimidados porque, para o MBL, faziam “fake news”.

A estratégia é sempre a mesma. Quando encontram alguém que tomam por adversário, ao invés de fazerem a batalha das ideias, com contra-argumentos direcionados à persuasão do público, preferem desqualificar e intimidar.

O primeiro passo é produzir uma manchete sensacionalista para uma matéria no site Jornalivre e compartilhá-la pela página do grupo no Facebook, dando a senha para sua rede de seguidores começar a agir. Em seguida, o alvo recebe dezenas de ataques que podem ser apenas mensagens e emails de ódio, mas frequentemente incluem também ameaças de agressão —nos casos mais graves, como nas ocupações de Curitiba ou na exposição em Porto Alegre, ativistas intimidam os adversários no local diretamente. Também é comum que, em meio ao constrangimento, filmem a ação para expor os adversários nas redes sociais, celebrando a “vitória” e retroalimentando o circuito de ódio e intolerância.

O crescimento da organização depois dos protestos contra Dilma permitiu que criassem uma rede de ativistas com boa penetração no território brasileiro e seu domínio nas redes sociais tem feito com que seu passe seja disputado pelas forças políticas tradicionais, num arco que vai do PSDB ao DEM, passando pelo PMDB e pelo PPS. Nas últimas eleições fizeram alguns vereadores e conseguiram um bom número de cargos em administrações municipais e estaduais, além de se vincularem ao atual prefeito de São Paulo, o presidenciável João Dória (PSDB).

Aqueles que zelam pela democracia e estavam preocupados com a ascensão nas intenções de voto do ex-capitão do exército que despreza os direitos humanos, não vê problema com a tortura e dá declarações odiosas sobre gays, negros e mulheres, agora tem pelo menos mais um motivo para se preocupar.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pablo-ortellado/2017/09/1917681-mbl-promove-intolerancia-e-intimidacao-de-adversarios.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=fbfolha

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