Complexo Fabril

Gabriel Brito – O tra­balho duro na in­dús­tria têxtil, os pés­simos sa­lá­rios, a in­sa­lu­bri­dade, a exaustão, a de­si­lusão, o as­sédio moral, as leis, a jus­tiça e a po­lícia a ser­viço do pa­trão.

Num pri­meiro mo­mento, o leitor deve pensar nos bo­li­vi­anos es­cra­vi­zados pelas em­presas ter­cei­ri­zadas que for­necem roupas para as Ma­risas e Zaras. Mas é a Co­reia do Sul, pu­jante como um tigre, cujo pa­drão de de­sen­vol­vi­mento econô­mico foi sau­dado em 10 de cada 10 re­por­ta­gens da mídia que ora luta pra manter as re­formas do go­verno Temer em pauta.

Se no Bom Re­tiro e ad­ja­cên­cias o so­frido povo ori­ental tem sua imagem as­so­ciada ao trato de­su­mano de mi­grantes ile­gais e mi­se­rá­veis, o filme de Im Heung-Soon, em cartaz na 6ª Mostra Eco­fa­lante de Ci­nema Am­bi­ental, traz uma Co­reia do Sul des­co­nhe­cida, cujos ní­veis de ex­plo­ração do tra­balho ex­plicam bem sua força econô­mica e im­pulso tec­no­ló­gico as­so­ciado ao “oci­dente de­mo­crá­tico”.

Ao re­tratar so­mente a saga das mu­lheres ope­rá­rias, cujos modos trazem aquela in­tri­gante de­li­ca­deza ori­ental, quase mo­nás­tica, o filme tem um apelo ainda maior para aqueles que ainda se per­mitem co­mover com os lances reais da luta de classes.

Di­vi­dido em eixos te­má­ticos, a Mostra, que vai de 1 a 14 de junho em São Paulo, com todas as exi­bi­ções gra­tuitas, traz neste ano abor­da­gens do meio am­bi­ente (com es­pe­cial des­taque para a Amazônia), con­su­mismo, Amé­rica La­tina e mundo do tra­balho, com­ple­men­tados por uma com­pe­tição de curtas-me­tra­gens uni­ver­si­tá­rios.

Em tempos de po­la­ri­dades po­lí­ticas a cada mi­nuto mais es­va­zi­adas ide­o­lo­gi­ca­mente, a mostra de ci­nema é obri­ga­tória para aqueles que se pre­o­cupam em en­tender o que re­al­mente se passa neste mundo ne­o­li­beral que com­pleta uma dé­cada de crise. E que não ofe­rece si­nais de saída, por mais que se fa­bri­quem no­tí­cias pouco res­pal­dadas em ele­mentos con­cretos, a anun­ciar “tí­midas re­cu­pe­ra­ções econô­micas”.

“Nas úl­timas dé­cadas do sé­culo pas­sado flo­res­ceram muitos mitos acerca do tra­balho. Com o avanço das tec­no­lo­gias da in­for­mação e co­mu­ni­cação não foram poucos os que pas­saram a acre­ditar na era de fe­li­ci­dade que se ini­ciava: tra­balho on­line, di­gital, a era in­for­ma­ci­onal, enfim, aden­trá­vamos fi­nal­mente o reino da fe­li­ci­dade. O ca­pital global só pre­ci­sava de um novo ma­qui­nário, agora des­co­berto”, es­creveu Ri­cardo An­tunes, talvez o maior in­tér­prete bra­si­leiro do mundo do tra­balho, em texto pu­bli­cado no livro-guia da mostra.

Ao lado dos de­mais filmes que com­põem o time de pe­lí­culas que re­tratam a dura faina da classe que produz os bens e as ri­quezas, a Mostra Eco­fa­lante faz o enorme ser­viço de nos per­mitir uma atu­a­li­zação da crí­tica ao ca­pi­ta­lismo e seus graus de ex­plo­ração, algo que pa­rece fora de moda até mesmo entre se­tores que se pro­clamam de es­querda.

O pu­nhado de filmes serve ainda para ajudar a re­a­cender a velha chama da so­li­da­ri­e­dade in­ter­na­ci­onal entre os tra­ba­lha­dores e tra­ba­lha­doras, cujas lutas con­ti­nuam se­me­lhantes e ne­ces­sa­ri­a­mente glo­bais.

Serve ainda para sairmos da pros­tração his­tó­rica que ainda im­pede os su­postos de­fen­sores do mundo do tra­balho, sin­di­ca­lismo in­cluído, de fa­zerem a crí­tica ho­nesta e co­e­rente da re­a­li­dade.

Isso porque o mo­mento é pro­fícuo para tais aná­lises, por todos os qua­drantes do pla­neta, o que in­clui o Brasil dos anos Lula e seu go­verno tido como “tra­ba­lhista”.

Afinal, o ci­nema na­ci­onal também co­meça a contar com re­gis­tros his­tó­ricos deste de­sen­vol­vi­men­tismo onde todos ga­nha­riam, como no bri­lhante do­cu­men­tário “Jaci – 7 pe­cados de uma usina amazô­nica”. Pro­du­zido pela equipe do Re­pórter Brasil, re­trata toda a bar­bárie que ga­rantiu a cons­trução das usinas no Rio Ma­deira, mar­cada por uma até hoje des­con­si­de­rada re­volta dos ope­rá­rios do com­plexo hi­dre­lé­trico, que por sua vez já co­lapsou boa parte de Porto Velho.

Vol­tando ao longa do di­retor Im Heung-Soon, os re­latos das cos­tu­reiras de grifes mun­di­al­mente ad­mi­radas lembra per­fei­ta­mente aquilo que re­fe­rimos no início em re­lação aos imi­grantes sul-ame­ri­canos. Jor­nadas in­ter­mi­ná­veis, sa­lá­rios baixos, as­sédio pa­tronal e cer­ce­a­mento das li­ber­dades po­lí­ticas e sin­di­cais são o pão de cada dia.

Mais que isso, o ca­ráter in­sa­lubre e pra­ti­ca­mente as­sas­sino se es­tende até mesmo à in­dús­tria de alta tec­no­logia, o que chega a es­capar até das aná­lises mais ri­go­rosas.

“Todas as pes­soas de ge­ra­ções an­te­ri­ores da minha fa­mília me cum­pri­men­taram com en­tu­si­asmo quando fui con­tra­tada pela Sam­sung. Para os co­re­anos mais ve­lhos, ir para uma em­presa deste perfil era a grande con­quista, o em­prego dos so­nhos”, re­latou uma das tantas ope­rá­rias en­tre­vis­tadas.

“No en­tanto, nunca ima­gi­namos o in­ferno que é lá dentro”, com­pletou, en­quanto to­má­vamos co­nhe­ci­mento do “in­ci­dente leu­cê­mico”, como ficou co­nhe­cida a epi­demia can­ce­rí­gena que matou 70 tra­ba­lha­dores da mul­ti­na­ci­onal. O mo­tivo foi a con­ta­mi­nação de um tipo de ál­cool usado para limpar fios de má­quinas que pro­duzem chips de me­mória.

De­pois, vi­eram as co­mis­sá­rias de voo de di­versas com­pa­nhias, a re­latar o de­sen­canto com a pro­fissão, vista por muitos com gla­mour. “No ar o seu des­gaste fí­sico é quatro vezes maior que no solo. E eu fi­cava 12 horas de pé em voos in­ter­na­ci­o­nais de grande dis­tância”, re­ve­lava uma tra­ba­lha­dora. “Obrigam a gente a ajo­e­lhar antes de falar com o pas­sa­geiro, uma forma de nos hu­mi­lhar que me deixa muito mal”, com­pletou, acres­cen­tando ou­tros de­ta­lha­mentos do ma­chismo mais re­pug­nante, tanto de cli­entes como de che­fetes, outra chaga uni­versal.

Os re­latos de­vas­ta­dores são inú­meros, o filme tem pouco mais de 1h:30m de de­poi­mentos sempre bru­tais. Nas cenas de rua, outro prato co­nhe­cido por essas bandas: cer­ce­a­mento ju­rí­dico-po­li­cial do di­reito de greve, pri­sões ab­surdas, tra­ta­mento ig­no­mi­nioso da casta po­lí­tica e, claro, muito “van­da­lismo” e “trân­sito pre­ju­di­cado” nas ima­gens da te­le­visão.

Por fim, vale des­tacar que o fes­te­jado tigre asiá­tico também con­vive com al­guns fa­tores fa­mi­li­ares em nosso con­ti­nente. A pro­mis­cui­dade pú­blico-pri­vada acabou de causar o im­pe­a­ch­ment da pri­meira mu­lher a pre­sidir o país, que tenta re­co­meçar sob Moon Jae-In, eleito há menos de um mês.

Pro­testos e greves são fre­quentes nesse “Chile asiá­tico” – isto é, por fora bela viola de nar­ra­tivas li­be­rais, por dentro pão bo­lo­rento, a exaurir, mu­tilar e em­po­brecer sua po­pu­lação, sem es­quecer os pas­sivos am­bi­en­tais.

En­quanto pro­cras­ti­namos a cri­ação de um novo mo­mento po­lí­tico, ca­bal­mente iden­ti­fi­cado com outro pro­jeto so­ci­o­e­conô­mico, a Mostra de Ci­nema Eco­fa­lante é um ótimo re­médio para esses tempos de de­bates cada vez mais em­po­bre­cidos e mesmo fa­la­ci­osos.

O em­bate Ca­pital x Tra­balho con­tinua como o grande motor da his­tória, anos luz à frente das des­po­li­ti­zadas e im­be­ci­li­zadas opo­si­ções entre “es­querda e di­reita”, pau­tadas por se­tores que não vão além de se ofe­re­cerem como so­lução para um mesmo sis­tema de es­po­li­ação da na­tu­reza e do ser hu­mano.

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