“A esquerda ficou na denunciologia e na choraminga”

Revista Diálogos do Sul – Aram Aharonian participou da criação do canal de TV latino-americano lançado por Hugo Chávez em 2005 e foi seu diretor geral até 2013.

Para o fundador de Telesur o problema da esquerda não tem relação com o orçamento, mas com a carência de ideias.

Para o fundador de Telesur o problema da esquerda não tem relação com o orçamento, mas com a carência de ideias.

Nesta entrevista à Radio Universidade de Chile, realizada em Buenos Aires, o jornalista uruguaio faz uma análise crua sobre os meios de comunicação, a esquerda latino-americana e os traumas dos meios contra-hegemônicos.

Aram Aharonian participou da criação do canal de TV latino-americano lançado por Hugo Chávez em 2005 e foi seu diretor geral até 2013. Nesta entrevista à Radio Universidade de Chile, realizada em Buenos Aires, o jornalista uruguaio faz uma análise crua sobre os meios de comunicação, a esquerda latino-americana e os traumas dos meios contra-hegemônicos.*

Para o fundador de Telesur o problema da esquerda não tem relação com o orçamento, mas com a carência de ideias. Aharonian valoriza o trabalho em redes e o coloca como indispensável para o avanço das ideias progressistas no continente. Acredita que Telesur fracassou na tentativa de ser latino-americana, que a ideia já se queimou e que os governos de esquerda, em sua maioria, não reconhecem o valor das comunicações. Nesse contexto Hugo Chávez teve que contornar essa resistência.

“Açúcarzinho, açuquinho”, responde quando lhe pergunta como prefere o café. “Eu sei que daqui pra frente não vão me deixar mais tomar com açúcar”,  acrescentou rindo. Aharonian carrega mais de 40 anos de trajetória jornalística em seus ombros.

Há pouco mais de uma década, co-fundou Telesur, uma TV que aspirava ser um canal latino-americano que fizesse concorrência à CNN em Espanhol e aos meios “hegemônicos”, e que hoje se mantém como um dos meios de comunicação da “contracultura” mais importantes no continente.

É uruguaio, viveu 13 anos na Argentina e depois desenvolveu parte importante de seu projeto profissional na Venezuela, próximo a Hugo Chávez. Há quatro anos voltou para a Argentina e trabalha numa fundação para a integração latino-americana onde se dedica principalmente em elaborar conteúdos a qualquer material que provoquem o que falar às forças de esquerda. Trabalha, entre outras coisas, na elaboração de um roteiro para erradicar o que ele chama a filosofia da choraminga e da denunciologia.

500 anos de resistência

Aram Aharonian – “Se tens uma posição política, o mínimo que tens que fazer é ter propostas. Se não tens propostas estarás sempre choramingando, nada mais. A esquerda ficou na denunciologia e choramingas. Há 500 anos que resistimos e estamos confundindo resistência com denúncia e choraminga. Inclusive do ponto de vista comunicacional, não temos uma agenda própria. Somos reativos à agenda do inimigo e dizemos “El Mercurio mente”, mas não dizemos o que queremos dizer nem visibilizamos os atores que queremos visibilizar. Somos reativos à agenda do inimigo e seguimos usando sua agenda. O que nós queremos destacar, nossa agenda política, sempre fica escondida porque pareceria que é mais importante denunciar, denunciar, denunciar.

Nesse panorama, o que fazer?

Aram Aharonian – É importante parar a máquina e começar a pensar. Eu dizia que às vezes dá a impressão de que estás lutando guerras que já não existem, que já passaram. Que têm a ti lutando nessa guerra enquanto eles fazem outras coisas. Continuamos acreditando que democratizar a comunicação significa uma repartição equitativa de frequência de rádio e televisão, quando já não servirão para nada dentro de uns três anos. Além disso, mesmo que te dêem todas as frequências, não tens um puto dum conteúdo para colocar. Não temos bancos de conteúdo, não sabemos utilizar os conteúdos de outros para trabalhar conjuntamente. Continuamos lutando guerras do século XX quando estão voando por cima da gente os drones do século XXI.

Essa é uma característica comum à esquerda na América Latina ou no mundo?

Aram Aharonian – Sempre digo que um computador hoje é a velha metralhadora. O campo de batalha é o campo virtual, ideológico, de ideias, e que há que saber utilizar as armas.

Estamos tratando de convencer os já convencidos?

Aram Aharonian – Sim. É muito mais cômodo. Estão todos de acordo conosco.

É esse o trabalho que estão realizando os meios de comunicação?

Aram Aharonian – Os meios são isso, meios. Há diferentes ferramentas de trabalho. O único problema que temos hoje em comunicações é que toda a caixa de ferramenta que temos já não serve pra nada. Deve-se fazer uma caixa nova. Eu dizia: “meninos, tenho uma notícia para vocês: estamos em guerra. Tenho uma segunda notícia: as armas que temos não servem pra nada”. Todos os governos progressistas que existiram, nenhum fez coisa alguma para mudar as estruturas. Hoje não temos movimentos sociais, não temos rua, não confiamos nas pessoas. Nunca entenderam a questão comunicacional.

Nenhum?

Aram Aharonian – Houve duas pessoas que me deram a impressão de que entenderam. Um foi Fidel Castro. Em 2000 disse: “nós não temos neste momento voz no mundo. Ninguém transmite o que queremos dizer. Ter um pequeno espaço é um triunfo”. Outro foi Chávez, depois de muito. Não entendia o que era soberania comunicacional. Depois sim, depois de tantos golpes. Quando eu falava com Hugo Chávez sobre soberania comunicacional, ele me dizia “você está inventando isso”. No dia que lhe deram o golpe arrebentaram com o canal oficial, que é a única transmissão por satélite que tinha. Não pode sair pra nenhum lado. “Agora entendi o que me dizias” me disse mais tarde.

Telesur e a contra-hegemonia

Qual o diagnóstico que propiciou o nascimento de Telesur?

Aram Aharonian – A necessidade de ser visto com os próprios olhos. Entendemos o que significava “alternativo”. Sempre nos venderam que queria dizer marginal, pequeno. No dia em que saiu Telesur nos demos conta de que a CNN em Espanhol, que era o única que tinha de TV em espanhol nesse momento, em dez anos nunca tinha mostrado um índio nem um negro. Isso mudou com a chegada de Telesur. Transmitiu a assunção de Evo Morales, não pode invisibilizar o golpe em Honduras. Terminou a possibilidade de tornar tudo invisível. Já havia uma alternativa de informação. Então, por mais que não seja do mesmo tamanho, é uma possibilidade de mostrar o que os outros não mostram.

Como se percebeu o formato?

Aram Aharonian – A mim ninguém ainda explicou porque a cada quinze minutos tenho que interromper a programação para passar publicidade, quando não havia tanta publicidade. Tampouco porque os apresentadores de notícias de Telesur tinham que vestir paletó e gravata, quando estamos falando de América Latina, que é um continente informal. Se o que eu quero é entrar em sua casa, sentar contigo para falar de uma notícia… Continuamos repetindo formatos alheios e agendas dos demais.

Conseguiu romper com essa estrutura?

Aram Aharonian – Conseguimos romper com isso durante três anos. Depois foi tudo pra merda.

O surgimento de Telesur ocorreu num contexto bastante atípico, em que havia uma série de governos progressistas…

Aram Aharonian – Surgiu um pouquinho antes. Foi quando ocorreu o discurso inicial de Chávez. Estava com Kirchner, Lula da Silva e Tabaré Vázquez. Evo Morales ainda não estava, Rafael Correa tampouco. Rafael Correa vinha sentar-se no meu escritório para que o mostrássemos na televisão. Quando chegava, a secretária me perguntava: “senhor Aram, quem é esse cara?” Esse cara vai ser o próximo presidente do Equador, eu respondia. Bom, e os cubanos. Não havia mais nenhum. Lula não fez nada, Kirchner abriu um pouquinho.

Esse contexto era atípico. O cenário de hoje não se presta para uma iniciativa desse tipo?

Aram Aharonian – Eu creio que já queimaram essa iniciativa. Porque no lugar de ser um canal latino-americano, como tinha que ser, terminou sendo um canal para o exterior da Venezuela. É muito difícil retomar o caminho porque não há vontade política. Na integração sempre faltou a vontade política.

E hoje o que se faz no campo comunicacional para fazer contrapeso à hegemonia?

Aram Aharonian – Hoje não se faz nada. Pode-se fazer muito porém há que inventar a forma de fazer. O problema é que não temos uma linha editorial para seguir. Por exemplo, que este semestre os temas sejam: a fome, os indígenas e os migrantes. Se a linha editorial deste semestre são esses três temas, vamos falar sobre isso em cada um dos países, teremos uma quantidade de conteúdo enorme. E depois é preciso ver a forma para que esses conteúdos saiam à luz.

Trabalhar em redes?

Aram Aharonian – Trabalhar com bancos de conteúdo.

Pode-se trabalhar com qualquer um ou só com a esquerda?

Aram Aharonian – Nãooo.

E como trabalhar de mãos dadas com as ideias dominantes?

Aram Aharonian – Pode-se conciliar sobre certos temas. O tema político é um tema à parte. Toda sua visão é uma visão política. A questão é ver os temas comuns que temos para tratar. E não “Fora Temer”… Ou sim, “Fora Temer” também, porém de outra forma. Em favor de algo, não contra tudo. Há um problema básico na esquerda: não sabe vender esperança. Sempre rende contas do que fez. “Nós entregamos um milhão 300 mil moradias, e milhões e milhões de brasileiros deixaram a pobreza extrema”. Pff. Tudo isso já está aqui (diz colocando a mão no bolso). E pra frente? Então um palhaço, com um balão e um “mudaremos” vence as eleições.

A direita sabe vender esperanças?

Aram Aharonian – Sabem vender esperança. Vendem, nada mais, mas sabem vender. Quando se copia isso aí é problema. A única mensagem assim que vi foi no Chile, o prefeito de Valparaíso. Já nem lembro como se chama.

Jorge Sharp

Aram Aharonian – Sharp. O único que teve uma mensagem pra frente.

E ganhou…

Aram Aharonian – E ganhou. A construção se faz desde abaixo, sempre. O único que se constrói desde cima é um poço.

No plano dos conteúdos. No Chile a sociedade ainda está despolitizada depois da ditadura. Ainda sente seu legado. Dá a impressão de que o que se quer ver na televisão é palhaçada, espetáculo.

Aram Aharonian – Toda gente que está na palhaçada é boba? Eu creio que não. Então há que buscar alguém que não seja bobo. E que fale dos pobres animaizinhos, não sei. Porém é uma forma de romper com isso. Nós estigmatizamos a toda essa gente. Essa gente está trabalhando.

Devem ser aproveitadas?

Aram Aharonian – Claro. Há que agarrá-los. Pode-se somar às pessoas que são dos temas ambientais, temas locais, não necessariamente de esquerda. Não se pode perder de vista o territorial, do bairro. Por ver muita televisão temos uma visão global de tudo e esquecemos de que o que importa realmente é o local, o que se sente na pele.

Isso as pessoas consomem?

Aram Aharonian – Vê, consome e se identifica. O problema de hoje é que não te identificas com nada do que transmitem. Tudo é espetáculo.

Existe algum meio que seja uma referência nesta matéria?

Aram Aharonian – Não.

Telesur fracassou?

Aram Aharonian – Eu creio que sim. Embora continue sendo uma das poucas referências, mas perde credibilidade com o fato de ser latino-americana. Quando fazemos um noticiário latino-americano, dizemos por exemplo, que há inundações em Valparaiso. E não nos faz pensar que há uma questão mais ampla: as razões climáticas. Assim com qualquer tema. Se eu quero fazer um noticiário que me mostre que os temas são comuns, se cria consciência regional, identidade. Assim não são excludentes o tema local e o tema global. O tema então não são as inundações em Valparaíso, é a mudança climática.

Que papel joga a parcialidade dos meios?

Aram Aharonian – Tudo é subjetivo.

Os meios devem tomar partido?

Aram Aharonian – Aqui há o grande princípio liberal que fala da objetividade, neutralidade e imparcialidade. Isso não existe. No momento em que tenha uma linha editorial isso tudo está morto. Inclusive, nós dos meios alternativos, não queremos ser neutros. Somos parte da guerra, não somos observadores. Ninguém observa a guerra. O que me parece totalmente antiético é dizer que é objetivo para expor seu próprio ponto de vista.

Isso é o mais característico dos meios de direita?

Aram Aharonian – Sim, de direita e hegemônicos

Qual é o limite da subjetividade?

Aram Aharonian – A ética. Em geral procuram a ética no dicionário com H, e é sem H. Por isso nunca a encontram.

Os meios de comunicação podem formar parte de um governo?

Aram Aharonian – Não. Creio que não devem formar parte de um governo, mas sim podem apoiá-lo. E tem que ser um apoio crítico, senão é um meio de propaganda, não de comunicação.

Como ocorreu com Telesur nesse sentido?

Aram Aharonian – Durante muito tempo foi bem. Depois mal

Perderam o senso crítico?

Aram Aharonian – Acabou o pensamento crítico. Telesur está se convertendo cada vez mais num meio para os convencidos. Como quase todos os nossos meios.

O que ocorrerá com Telesur quando terminar o chavismo?

Aram Aharonian – Vai terminar o chavismo?

Eventualmente

Aram Aharonian – Sim. Creio que se há gente inteligente ficará com o projeto, mas creio que nem no chavismo nem no outro lado haja gente inteligente. Está sendo utilizada como instrumento de propaganda. Com uma boa comunicação você pode chegar a muito mais mentes e almas que com propaganda grosseira e repetindo palavras de ordem. O que mais dano faz à esquerda latino-americana é ser repetidora de palavras de ordem. Eu não creio na democracia formal, não creio na continuidade da democracia liberal..

Chávez, a revolução e o bolivarianismo socialismo

Como era sua relação com Chávez?

Aram Aharonian – Muito boa, muito amigável. Ele insistia para que eu me tornasse venezuelano. Eu dizia que não, porque quando eu cruzasse com ele pelos caminhos ele me ofereceria um cargo e eu o mandaria à merda. Chávez conseguiu fazer tal quantidade de coisas porque nunca fez política. Não sabia o que se podia fazer e o que não se podia fazer. Então, mandava à merda Estados Unidos sem saber que não se podia mandar à merda.

Pesou nele isso?

Aram Aharonian – No longo prazo sim. No momento, não. Por outro lado tinha a ideia de que tudo é vertical, porque essa era sua formação. Quando lhe dizíamos que tinha que fazer um partido, dizia “que partido!” Se Chávez não conhecia nada. Chávez não conhecia Caracas. Tinha estado um par de vezes mas não conhecia. O que eu gostava em Chávez era sua cara de garoto sem professora, do moleque que vai fazer todas as travessuras. Sempre olhando e pensando a quem foder. Tinha essa grande capacidade de foder.

Porém tinha uma formação fodida?

Aram Aharonian – Uma formação fodida. Do campo, pobre. Antes de assumir fez uma viagem a Paris. Voltou e me disse “Aram… a torre Eiffel existe, eu a vi”. Isso era Chávez. Seu sonho era jogar no Yankee Stadium e jogou. Todos os seus sonhos de criança foram realizados. Tinha muito mais interesse em jogar no Yankee Stadium do que falar com o presidente de Estados Unidos.

Cometeu um erro sendo demasiadamente personalista?

Aram Aharonian – É sua formação. O problema de não formar quadros administrativos, políticos, não se formou nada. Não tinha formação política. Seu herói: Bolívar. Bolívar não escreveu um puta de um livro! Bolívar escreveu cartas, que são muito boas, seu pensamento é bom, mas há que sacar com saca-rolhas. Chávez designou a Samuel Moncada para que escrevesse as bases do bolivarianismo. Esteve um ano lendo e estudando. Antes que fosse publicado foi ao Foro Social de Porto Alegre. Ali Chávez anuncia que a revolução bolivariana era socialista. Cagou em tudo. Matou-a. Perdeu todo o trabalho de um ano. Não tinha dito a ninguém. A ele Chávez, lhe ocorreu e anunciou e tchau.

E era socialista?

Aram Aharonian – Sim, ele acreditava que podia ser socialista.

Sabia o que era o socialismo?

Aram Aharonian – Sim. Talvez não soubesse como implementá-lo. Teve uma escola muito ruim com os cubanos, que foram um desastre. São muito bons para algumas coisas e muito ruins para outras. A formação ideológica é muito ruim, primeiro porque em Cuba não sabem o que é o capitalismo, sabem falar contra o capitalismo, mas não viveram o capitalismo. Não sabem o que é o capitalismo.

E Maduro?

Aram Aharonian – Não tem muito mais. A falta de formação de quadros, a correlação interna de forças…

Maduro também deixou escapar a coisa?

Aram Aharonian – Nunca a teve.

Venezuela é um país mais democrático que os demais da região?

Aram Aharonian – Em algumas coisas sim, em outras não. O que a gente não considera é que na Venezuela os chavistas ainda não saem às ruas, a lutar. O povo chavista. Eu não creio que ocorra algo, lamentavelmente, porque a direita não têm ideias. É um país muito fodido. Se lhe roubaram tudo, entre eles os militares. Essa tem sido a forma de mantê-los. Com cargos públicos também. É uma corrupção obscena…

“Vou-me embora, diz Aram em tom lapidário e fica calado um instante. Tem gente trabalhando em sua casa. Acrescenta que gosta de conversar com os jovens. Não para dizer-lhes o que fazer, mas para mostrar-lhes as opções. Pede a conta ao garçom. “Sem anestesia”, diz. Parece que se conhecem desde há algum tempo. Aram Aharoriam se levanta enquanto relembra em voz alta algum outro episódio de suas vivências com Chávez. Paralelamente, se prepara para caminhar sob a chuva e o frio do inverno bonaerense. Nesse exato momento a chuva amainou, sai caminhando.

http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/a-esquerda-ficou-na-denunciologia-e-na-choraminga/15082017/

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