Ainda as confusões globais

Wladimir Pomar – De­pois de as­sistir pela TV à vi­agem do pre­si­dente Trump à reu­nião com os lí­deres de países de pre­do­mi­nância is­lâ­mica, ao en­contro dele com li­de­ranças da OTAN e com um papa fla­gran­te­mente des­con­tente, não deixa de ser es­tranho que al­guns pen­sa­dores con­si­derem os BRICS, a China e a Rússia como os prin­ci­pais “grupos” ou “polos” pre­sentes no ce­nário mun­dial. Para criar uma con­fusão ainda maior, tais pen­sa­dores afirmam que o grupo dos BRICS teria se es­fa­ce­lado pelo “ataque do sis­tema fi­nan­ceiro”. Na prá­tica, se­gundo pensam, no mundo so­bra­riam os grupos da China e da Rússia.

O grupo da China seria cons­ti­tuído pelos “países de sua área de in­fluência”, num mo­mento fa­zendo o jogo do sis­tema fi­nan­ceiro, noutro apoi­ando a Rússia. No con­fronto ao sis­tema fi­nan­ceiro res­ta­riam a Rússia e países de sua área de in­fluência, além do Irã, Co­reia do Norte e países iden­ti­fi­cados como “bo­li­va­ri­anos”.

Esses mem­bros do ter­ceiro “grupo” se­riam ob­jeto de cons­tantes ata­ques, seja através de “mo­vi­mentos po­lí­ticos e po­pu­lares fi­nan­ci­ados pelo sis­tema fi­nan­ceiro, seja através da di­vul­gação de todo tipo de men­tiras pelos veí­culos de co­mu­ni­cação de massa, ou por meio da sub­venção e su­borno de sin­di­catos e as­so­ci­a­ções em­pre­sa­riais”.

Por­tanto, em sín­tese, para al­guns desses pen­sa­dores, a luta do dia a dia se tra­varia “entre o sis­tema fi­nan­ceiro e a Rússia”. Esta apa­rece, in­clu­sive, como sus­peita de in­fluir nas elei­ções norte-ame­ri­canas, nas quais o sis­tema fi­nan­ceiro teria sido “der­ro­tado”, e de in­ter­ferir nas elei­ções fran­cesas, onde o sis­tema fi­nan­ceiro teria saído ven­cedor com seu “em­pre­gado” Ma­cron.

Para ou­tros, porém, a China seria a per­so­ni­fi­cação do “glo­ba­lismo”, isto é, dos “glo­ba­lismos em geral” e do “glo­ba­lismo mul­ti­polar não fi­nan­ceiro” em par­ti­cular. Isto ocor­reria porque seria na Ásia do Pa­cí­fico que as “trans­na­ci­o­nais fi­nan­ceiras glo­bais” e “uni­ver­sais” con­vi­ve­riam nas eco­no­mias emer­gentes, mar­cando a es­cala do “um­bral de poder mun­dial” do “Uni­ver­sa­lismo / Glo­ba­lismo”. Tal es­cala mos­traria a “mag­ni­tude de poder” na qual “se produz e se re­a­liza poder e valor”. Seria o es­paço mais pro­vável a triunfar no con­flito in­terno entre as duas fra­ções de ca­pital fi­nan­ceiro, con­flito agu­çado pelo pro­jeto “na­ci­o­na­lista in­dus­tri­a­lista” de Trump.

Nessa sa­ra­banda de con­ceitos que mais pa­recem ser­pen­tinas e con­fetes de car­naval, há al­guns pontos de con­ver­gência entre tais cor­rentes de pen­sa­mento. En­xergam a Rússia e a China, sem dizer exa­ta­mente por que, como as pontas de lança de um “mundo mul­ti­polar”. Em tal mundo não ha­veria “su­bor­di­nação de umas na­ções por ou­tras, nem a sub­sunção de todas as na­ções a um Es­tado global”.

Se a Rússia e a China rei­vin­dicam algo para um mundo mul­ti­polar, este algo seria pre­ci­sa­mente a “so­be­rania na­ci­onal”, rei­vin­di­cada pelo papa Fran­cisco, no nível es­pi­ri­tual, como a con­dição para o “res­peito de cada re­li­gião pela outra e a con­vi­vência ecu­mê­nica entre as mesmas”. Desse modo, as “duas con­cep­ções” (mul­ti­po­la­ri­dade e hu­ma­nismo ecu­mê­nico) se re­for­ça­riam, em­bora o “hu­ma­nismo ecu­mê­nico” não apa­reça como um grupo.

Nas con­di­ções de um mundo mul­ti­polar e hu­ma­nista ecu­mê­nico, rei­teram nossos pen­sa­dores, “o pro­cesso de acu­mu­lação de ca­pital” não teria vida longa di­ante da “Nova Rota da Seda”, uma “es­pécie de pro­jeto de­sen­vol­vi­men­tista pro­du­tivo em es­cala mun­dial a partir das pe­ri­fe­rias”. Esta seria “uma saída, ao menos tem­po­rária”, em que ha­veria “lugar para todos os ca­pi­tais, mesmo dos EUA e com os quais Trump po­deria en­trar”.

“A grande per­gunta” que fazem é se, “uma vez con­cluídas as grandes obras de in­fra­es­tru­tura nos EUA e das Rotas da Seda”, tais in­ves­ti­mentos de­sen­ca­de­a­riam ou não um “novo ciclo de re­pro­dução do ca­pital”. Os au­tores das teses acima acre­ditam que “o ce­nário mais pro­vável é que não de­sen­ca­de­arão” e que, “em vista disso, a tran­sição ao pós-ca­pi­ta­lismo es­tará em pro­cesso”.

Er­ro­ne­a­mente, não con­si­deram que a mul­ti­po­la­ri­dade se tornou uma re­a­li­dade a partir do pró­prio pro­cesso de glo­ba­li­zação, à me­dida que o ca­pital, em­pur­rado pela ele­vação da pro­du­ti­vi­dade e pela cen­tra­li­zação, e acos­sado pela ten­dência de queda da taxa de lucro, teve que aplicar uma dupla po­lí­tica de ex­por­tação de ca­pi­tais. De um lado, a ne­o­li­beral, de es­pe­cu­lação fi­nan­ceira, de­sin­dus­tri­a­li­zação e saque das ri­quezas dos países que se su­bor­di­naram ao Con­senso se Washington (Ar­gen­tina, Brasil, Grécia etc.).

De outro, a de re­lo­ca­li­zação de plantas in­dus­triais seg­men­tadas e/ou com­pletas dos países cen­trais (EUA, In­gla­terra etc.) para in­dus­tri­a­lizar países de mão de obra ba­rata (China, Índia, Vi­etnã, Tai­lândia etc.), pas­sando a acu­mular ca­pital através da apro­pri­ação de uma parte do pro­duto in­terno bruto desses países, mas se de­sin­dus­tri­a­li­zando.

Em termos ge­rais, esse duplo pro­cesso, em­bora in­ten­si­fi­cando a cen­tra­li­zação do ca­pital nas po­tên­cias ca­pi­ta­listas cen­trais, con­duziu ao de­clínio econô­mico e po­lí­tico de al­gumas delas, em es­pe­cial dos Es­tados Unidos e da In­gla­terra, e à emer­gência de novas po­tên­cias ca­pi­ta­listas e de so­ci­a­lismo de mer­cado, es­pe­ci­al­mente Rússia, Índia e China. A uni­po­la­ri­dade norte-ame­ri­cana teve que se con­frontar, cada vez mais, com a mul­ti­po­la­ri­dade em todos os campos das re­la­ções in­ter­na­ci­o­nais entre as na­ções. O pró­prio termo in­dica uma si­tu­ação de inú­meros polos, ou grupos, em­bora al­guns te­nham ob­tido des­taque, como o G8 (agora G7), a UE, a OTAN, os BRICS, o Grupo de Shanghai, a Unasul, os Bo­li­va­ri­anos…

Nos Brics par­ti­cipam Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, sendo cedo e con­tra­di­tório dizer que tal “grupo” se es­fa­celou pelo “ataque do sis­tema fi­nan­ceiro” (ocor­rido no Brasil), ao mesmo tempo em que Rússia e China apa­recem como “ca­beças” de grupos de suas “áreas de in­fluência”. Também tem pouca con­sis­tência supor que a China faz jogo duplo (apoio ao sis­tema fi­nan­ceiro ou à Rússia), en­quanto apenas a Rússia e os Bo­li­va­ri­anos se­riam alvos per­ma­nentes de ata­ques po­lí­ticos do sis­tema fi­nan­ceiro.

Na ver­dade, a cres­cente mul­ti­po­la­ri­dade exige que todas as na­ções façam certo “jogo duplo”, seja nas re­la­ções com as cor­po­ra­ções trans­na­ci­o­nais, seja nas re­la­ções com as de­mais na­ções, tendo em conta que o ca­pital, em suas formas fi­nan­ceira, in­dus­trial, co­mer­cial e de ser­viços está em todas elas. Um dos pro­blemas de tal pro­cesso é que, en­quanto as grandes po­tên­cias ca­pi­ta­listas ainda não con­se­guiram su­perar sua crise, com cres­ci­mentos econô­micos in­sig­ni­fi­cantes, al­guns dos mem­bros dos Brics, es­pe­ci­al­mente Índia e China, con­ti­nuam cres­cendo a taxas anuais su­pe­ri­ores a 6% ao ano. O que leva a outro pro­blema: cor­rentes so­ciais e po­lí­ticas de al­gumas grandes po­tên­cias, es­pe­ci­al­mente EUA, In­gla­terra e França, en­xergam na guerra o re­médio para sair da crise e in­gressar num novo pro­cesso de de­sen­vol­vi­mento do ca­pital. Trump é apenas a voz mais po­de­rosa dessas cor­rentes glo­bais, em­bora apa­rente pre­tender apenas um “na­ci­o­na­lismo in­dus­tri­a­li­zante”.

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