Marx não morreu

Helena Celestino – Só 11 pessoas foram à cerimônia fúnebre de Karl Marx, em 1883. “O Capital”, a obra que consumira duas décadas da sua vida, estava inacabada e causara-lhe tantos sofrimentos e privações que ele se referia ao trabalho como “o maldito livro”. Foi escrito em tempos de convulsão como o atual século XXI, em que tudo que é sólido parece se desmanchar no ar. Às guerras napoleônicas, sucederam-se revoluções pela Europa (França, Itália, Alemanha, Império Austríaco). O capitalismo nascia na Inglaterra e a moderna indústria revolucionava o mundo.

“As inovações ultrapassavam todas as grandes civilizações do passado. Em nome do livre comércio, as fronteiras nacionais foram derrubadas, os preços caíram, o planeta tornou-se interdependente e cosmopolita. Bens e ideias agora circulavam em todos os lugares. Mas tinha um problema. A riqueza não era igualmente distribuída.” Parece banal? Agora, talvez, mas essa citação apareceu pela primeira vez no “Manifesto Comunista”, um panfleto de 23 páginas distribuído em Londres em 1848, e reapareceu em 1887 em “O Capital”, a monumental obra sobre a gênese do capitalismo.

O seu autor, Karl Marx (1818-1883), às vésperas de chegar ao bicentenário de nascimento, não errou. A obra da sua vida completa 150 anos em setembro e, sem notar, incorporamos no falar cotidiano do século XXI as ideias básicas da crítica marxista ao capitalismo. “As pessoas sabem que há desigualdade social, sabem que há luta na distribuição dos recursos segundo a posição de poder de cada um na sociedade. Estou usando outra linguagem, mas isso é luta de classes, e é disso que as pessoas falam”, afirma o ex-ministro da Cultura e professor Francisco Weffort, referindo-se ao conflito de interesses entre os “detentores do capital e os que vendem a força de trabalho”.

O reconhecimento da presença de interesses econômicos e sociais no dia a dia não transforma ninguém em marxista, mas é Marx – concordam os estudiosos – a maior referência acadêmica e intelectual a deitar raiz no fenômeno da desigualdade e do conflito social. “Esses pensamentos radicais, sobre as raízes do mundo moderno, não são superáveis facilmente. É o caso de Marx e de Max Weber [1864-1920], eles tiveram a coragem de pensar o início de tudo”, diz Weffort.

Ao redor do mundo, universidades, “think tanks” e editoras aproveitam as duas datas comemorativas para revisitar o legado do filósofo e revolucionário do século XIX, inspiração para os movimentos de esquerda e assombração para os governos autoritários de direita, já declarado morto e ressuscitado em igual número de vezes.

Quando a crise financeira de 2008 explodiu na Europa e nos Estados Unidos, “O Capital” pulou para as listas de mais vendidos: o primeiro livro a descrever as crises periódicas do capitalismo ganhava novo sentido. O interesse trazia Marx de volta ao debate público, depois de um longo período em que seu pensamento era olhado com desprezo por causa do colapso da União Soviética e do fracasso dos regimes ditos socialistas no Leste da Europa. Ao decretar o fim da história, enterrava-se junto e misturado o marxismo e “O Capital”.

“Pela primeira vez está sendo publicada a obra original de Marx em sua totalidade”, diz o matemático e filósofo alemão Michael Heinrich, professor da Universidade de Ciências Aplicadas de Berlim. Ele é um dos editores do maior projeto de reinterpretação de Marx, não por acaso chamado de Mega-2. Começou em 1974 e não tem data para acabar: todos os manuscritos do filósofo estão sendo republicados na Alemanha na sua forma original, ou seja, antes de editados por Friedrich Engels (1820-1895).

Na primeira semana de junho, Heinrich fez o circuito das universidades brasileiras, dando início às comemorações dos 150 anos de “O Capital”. Em setembro, lança a 26ª biografia de Marx, três volumes a serem publicados pela Boitempo. A cabeça em pedra do barbudo com jeito de profeta, reverenciada por turistas no cemitério de Highgate, em Londres, estará na capa de outro livro a ser lançado em outubro pela Companhia das Letras: a conceituada biografia do professor Gareth Stedman Jones, em que o britânico tenta separar Karl do mítico Marx, inspirador do marxismo.

Quase 200 anos depois de seu nascimento, ele ainda é considerado imprescindível pelos estudiosos. Quando morreu, dormindo numa cadeira na sua casa de Londres, além do fiel escudeiro Engels, poucos apostavam em Marx como o homem que mudaria a consciência do mundo – segundo as palavras do filósofo Bertrand Russell (1872-1970). Na maior parte da vida, foi estrela de uma pequena comunidade de exilados e revolucionários, mas seus livros estavam longe de ser best-sellers. “O Manifesto Comunista” sumiu logo depois de lançado e assim ficou por 24 anos. “O Capital” vendeu mil exemplares em quatro anos e só foi traduzido para o inglês 12 anos depois.

Demorou quase meio século para o livro chegar ao Brasil. Importados ou em traduções mambembes da editora do Partido Comunista Brasileiro, os textos de Marx nos anos 20 e 30 eram conhecidos dos grandes escritores da época (Oswald e Mário de Andrade, Graciliano Ramos) e viravam conversas de botequim, mas estavam fora do currículo das universidades. Foi por meio de um grupo de estudos, inventado por jovens professores da USP, que Marx fez sua entrada oficial na academia.

A partir de 1958, eles se reuniram semanalmente durante três anos para ler “O Capital”. Ruth e Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Octavio Ianni, José Arthur Giannotti, Paul Singer, Fernão Novaes e alguns “alunos penetras” – como se define o critico literário Roberto Schwarz – encontravam-se aos sábados, por seis horas, nas casas de uns e outros. “Era um clima de camaradagem, animação e alguma rivalidade, com rodízio de expositor e uma comilança no final”, descreve Schwarz no recém-lançado “Nós que Amávamos Tanto O Capital – Leituras de Marx no Brasil” (Boitempo). “Tinha sempre um debate longo porque todos tinham um discurso comprido para fazer, qualquer que fosse a importância daquilo que pensava”, ironiza Weffort.

Já se passou outro meio século, e uma infinidade de autores ainda lança novos olhares sobre a obra de Marx. Após a morte do amigo, Engels dedicou anos para juntar os caóticos textos deixados pelo filósofo e publicar os volumes 2 e 3 de “O Capital”. O resultado final, em alguns trechos, foi mais “revolucionário” do que na versão original, e um exemplo é a previsão do colapso do capitalismo, hoje reconhecida como uma contribuição de Engels – Marx falara apenas que a tendência da redução dos lucros das empresas “sacudiria” o capitalismo. Parece uma firula, mas abriu a porta para interpretações marxistas mais radicais e levou os críticos a tentarem aprisionar Marx no século XIX.

Para o economista-celebridade Thomas Piketty, autor do best-seller “O Capital no Século XXI” (ed. Intrínseca), os economistas fariam bem em buscar inspiração em Marx. O francês usou os recursos da matemática moderna para mostrar a verdadeira natureza das relações sociais, conseguindo realizar o sonho do filósofo no século XIX, quando fazia pesquisas diárias no British Museum lendo relatórios de fábricas e similares para comprovar empiricamente suas teses. Piketty provou matematicamente que o mercado não se regula sozinho e, a partir de 1980 e 1990, a desigualdade voltara a atingir os níveis do tempo de Balzac (1799- 1850), “refletindo a lógica de Marx”.

Essa é também a análise do filósofo Wolfgang Street, mas sua conclusão é diferente: Marx errou. Numa entrevista à revista “Books”, ele vê no pós-guerra as democracias repartindo mais equalitariamente os lucros através do Estado-previdência e, com isso, conseguindo uma certa paz social. Só que depois dos chamados “30 gloriosos anos”, afirma, o capitalismo atual livrou-se das regulações sociais, recuperou certos traços anteriores a 1945 e, por isso, a desigualdade aumentará e novas crises acontecerão. Mas, diferentemente da revolução prevista por Marx, Street não consegue antever nenhum movimento organizado com capacidade de se opor ao capitalismo globalizado.

O Marx político é o mais polêmico. O historiador e escritor Daniel Aarão Reis, um admirador e leitor assíduo, vê o teórico militante como aberto, libertário e flexível, mas aponta dois problemas: um certo messianismo proletário e autoritarismo, ao criar uma oposição entre o saber científico (o seu) e a utopia das propostas rivais. Isso levou a social-democracia a achar que eles tinham a verdade e os outros, a ilusão, diz. Esse Marx doutrinário é alvo de mais críticas – especialmente depois dos regimes construídos em seu nome -, mas a confusão política recente aqui e no mundo está levando jovens no Reino Unido, nos EUA e até no Brasil a voltar a ele para entender o que está acontecendo ao redor.

A brasileira Antonia Oliveira Violeta Duarte, de 16 anos, estudante do Andrews e manifestante presente em protestos recentes no Rio, fez uma escolha surpreendente quando a avó pediu seis nomes de livros para dar-lhe de presente. Entre eles, incluiu “O Capital”. Por quê? “Quero ler para poder tomar posição. A política é o que mais me interessa”, diz.

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