Brasília em chamas: diretas e violência

Alessandra Orofino – Não gosto de manifestações violentas. Por uma série de razões. Primeiro, porque são excludentes –há uma série de pesquisas que mostram que ondas de protesto têm muito mais chance de ganhar escala se forem pacíficas, sobretudo entre cidadãos mais velhos, adolescentes e mulheres. Segundo, porque o emprego da violência gera, de fato, farta munição retórica para o “outro lado”, podendo subsidiar, inclusive, o acirramento de medidas de exceção e a militarização da repressão.

Os liberais que inventaram a democracia representativa –e seu jeito persistente de assegurar a transição pacífica de elites no poder– também não gostavam de violência. Contra ela, defendiam, em geral, o voto. Uma população que vota não precisa cortar a cabeça da rainha. Pode simplesmente escolher outro monarca, dentre uma série de opções delimitada previamente por obscuros mecanismos de reprodução política e social.

Dá para perceber que não vejo o voto como nada de revolucionário. Pelo contrário. É o básico, é o feijão com arroz da democracia –e, ao mesmo tempo, é também o instrumento de criação da ilusão do controle, podendo ser profundamente perverso e, na essência, antidemocrático. Afinal, quem de nós sabe, de verdade, como os partidos escolhem seus candidatos? E quem tem influência sobre esse processo? Dá para dizer que vivemos numa democracia se vamos todos ser comidos e a única coisa que podemos escolher é o ponto de cozimento?

No entanto, apesar de todas as limitações e contradições inseridas no voto, uma coisa é inegável: numa república presidencialista, quando o voto é negado –ou usurpado, ou ignorado– fecha-se o único canal importante de participação institucional da população. E, a partir daí, não dá para dizer a essa população que a violência é ilegítima. A violência é, nesse caso, o último recurso possível depois da falência de todos os outros. É mais do que compreensível –é inevitável que ela ocorra.

Note-se que aqui estou falando apenas da violência contra o patrimônio, nunca contra pessoas. Aliás, quem costuma voltar as suas garras contra as gentes, e não as coisas, é o Estado –esse que é responsável, segundo as estatísticas mais conservadoras, por pelo menos 5% dos homicídios do Brasil. E que agora, no seio da maior cidade do país, quer ter o poder de privar qualquer ser humano de sua liberdade e suas escolhas sem julgamento prévio, bastando para isso alegar, unilateralmente, que essa pessoa está viciada em drogas: um tipo de tutela violenta que faria os mesmos liberais que inventaram a representação moderna ter um pequeno infarto do miocárdio.

Aos céticos que temem as diretas, é importante que se diga: diretas ou não, eleições não vão, sozinhas, mudar o país. Para isso, precisaremos de uma reforma profunda de todos os mecanismos de participação, fazendo com que o controle da população se estenda muito, mas muito além do voto. Mas a ausência de diretas, num momento em que tanto o Executivo quanto o Legislativo estão no meio de uma crise de legitimidade e credibilidade sem precedentes, abre as portas não só para a violência, mas para a quebra de confiança que a violência representa e a partir da qual ela se justifica. A classe política do Brasil nos jogou no buraco em que estamos. A população deve poder escolher uma forma de sair dele. Ou Brasília só terá começado a queimar.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/alessandra-orofino/2017/05/1888232-brasilia-em-chamas-diretas-e-violencia.shtml

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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