Desacelera São Paulo

Raquel Rolnik – A pre­fei­tura de São Paulo anun­ciou no dia 2 de maio que irá au­mentar em 20% o tempo para tra­vessia de pe­des­tres nos se­má­foros da ci­dade. A me­dida é re­al­mente muito po­si­tiva e ga­rante maior pro­teção aos pe­des­tres, es­pe­ci­al­mente aos idosos ou àqueles que têm al­guma di­fi­cul­dade de lo­co­moção. O tempo atual, cal­cu­lado para uma média de 1 metro de per­curso a cada 12 se­gundos, é muito curto e expõe as pes­soas a atro­pe­la­mentos.

O anúncio desta me­dida, en­tre­tanto, é uma es­pécie de con­trar­re­ação aos im­pactos das ações pro­mo­vidas pelo pró­prio pre­feito João Doria, que de­ter­minou o au­mento do li­mite de ve­lo­ci­dade das mar­gi­nais, cum­prindo uma de suas pro­messas de cam­panha para chegar ao cargo. Aliás, é pre­ciso lem­brar que o slogan de sua can­di­da­tura foi “Ace­lera SP”, evi­den­ci­ando que um dos ele­mentos cen­trais da cul­tura de ci­dade que ele quer pro­mover é jus­ta­mente a ve­lo­ci­dade, a cir­cu­lação mais rá­pida.

Mas as es­ta­tís­ticas de aci­dentes e mortes no trân­sito de­mons­tram as con­sequên­cias dessa po­lí­tica: pé no ace­le­rador fere e mata. No se­gundo mês de vi­gência da me­dida, im­plan­tada em 25 de ja­neiro, acon­te­ceram 117 aci­dentes com ví­timas e duas mortes nas mar­gi­nais, en­quanto no pri­meiro mês foram 106 casos, se­gundo a pró­pria pre­fei­tura.

Ela afirma não poder com­parar esses dados com os do ano an­te­rior, ainda sob a gestão de Fer­nando Haddad, por terem sido usadas me­to­do­lo­gias di­fe­rentes. Além disso, os aten­di­mentos do SAMU até o dia 10 de março che­garam a 186, quan­ti­dade três vezes maior em re­lação ao mesmo pe­ríodo no ano pas­sado.

E não são apenas essas es­ta­tís­ticas la­men­tá­veis que com­provam a cor­re­lação entre altas ve­lo­ci­dades e aci­dentes fa­tais. Es­tudos re­a­li­zados em 2004 pela Or­ga­ni­zação Mun­dial de Saúde (OMS) já apon­tavam, com base em dados do trân­sito de ci­dades do mundo in­teiro, que 1% de ace­le­ração a mais sig­ni­fica risco 3% maior de co­lisão e 5% maior de morte.

Ainda que atro­pe­la­mentos pro­vo­quem le­sões, seja qual for a ve­lo­ci­dade do veí­culo, quanto maior a ve­lo­ci­dade, mais graves estas se tornam. Em uma co­lisão com o carro an­dando a 32 km/h, o risco de fe­ri­mento é de 30% e o de morte é de 5%, mas quando a ve­lo­ci­dade é su­pe­rior a 64 km/h, o risco de morte se eleva para mais de 85%.

Por­tanto, pro­teger os pe­des­tres é ab­so­lu­ta­mente in­com­pa­tível com o au­mento do li­mite de ve­lo­ci­dade das vias.

O pre­feito pre­cisa ad­mitir isso e voltar atrás, assim como de­veria aban­donar o slogan “Ace­lera SP”, que, na ver­dade, es­ti­mula a cul­tura da ve­lo­ci­dade. Em de­fesa da vida – e de sua qua­li­dade – in­te­ressa, sim, que a ci­dade de­sa­ce­lere!

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