Ataque a gás na Síria: expert estadunidense desmente os EUA

Luiz Eça – Há duas ver­sões sobre o ataque quí­mico em Khan Shaykhun, na Síria. Os EUA afirmam que o go­verno Assad foi o res­pon­sável. Te­riam sido os aviões dele que lan­çaram as in­fer­nais bombas de sarin na ci­dade con­tro­lada pelos re­beldes.

A versão russa é di­fe­rente. Em bom­bar­deio da avi­ação síria de uma fá­brica e de­pó­sito de armas quí­micas da Frente Nusra (fi­lial da Al-Qaeda), in­te­grante do exér­cito anti-Assad, ocorreu um va­za­mento de gás sarin que atingiu Khan Shaykhun, ma­tando 90 civis.

O ataque foi no dia 4 de abril e já em 5 de abril a mídia in­ter­na­ci­onal cho­cava o mundo com o horror de­sen­ca­deado pelo bad guy Assad (a versão russa ga­nhou es­paço mí­nimo ou foi ig­no­rada).

Ao mesmo tempo, o go­verno norte-ame­ri­cano e es­ta­distas eu­ro­peus con­cluíram que as fotos e ví­deos que re­ce­beram da ci­dade bru­tal­mente ata­cada pro­va­riam as culpas do go­verno sírio. Unidos, eles exi­giam que algo tinha de ser feito para im­pedir que novas ações do tipo fossem lan­çadas.

Tudo acon­teceu em apenas dois dias, pa­re­cendo uma ação per­fei­ta­mente or­ques­trada. Que se com­pletou quando, jus­ti­fi­cando-se pela bar­bárie do ataque, Trump es­queceu a sempre pro­cla­mada mul­ti­la­te­ra­li­dade, para lançar de forma uni­la­teral 59 mís­seis contra uma base aérea do go­verno de Da­masco.

Cla­mando contra a vi­o­lação da so­be­rania da Síria, a Rússia in­sistiu numa in­ves­ti­gação para provar que sua versão es­tava certa, o que tor­naria a re­voada dos 59 mís­seis não só ilegal, como também ab­so­lu­ta­mente in­justa.

O Oci­dente pagou para ver. “Tudo bem, se­nhor Putin, acei­tamos a exi­gência russa, apre­sen­ta­remos uma re­so­lução ao Con­selho de Se­gu­rança da ONU como vocês querem”.

E o que acon­teceu foi di­vul­gado urbi et orbi: a Rússia vetou. Teria mos­trado temer a ver­dade, ou seja, a con­clusão da in­ves­ti­gação com­pro­varia as culpas de Assad.

Mas, nesse epi­sódio, o vilão foi a mídia in­ter­na­ci­onal. Toda a grande im­prensa omitiu um fato que mu­dava tudo. Ao vetar a in­ves­ti­gação, o que os russos te­miam não eram as con­clu­sões da in­ves­ti­gação, mas sua par­ci­a­li­dade. Como con­fiar num inqué­rito que só con­si­de­rava a hi­pó­tese do bom­bar­deio por aviões do go­verno?

A ori­en­tação dos in­ves­ti­ga­dores tinha um claro viés: o go­verno sírio de­veria lhes for­necer planos de voos, in­for­ma­ções sobre ope­ra­ções aé­reas em 4 de abril, nomes dos co­man­dantes de es­qua­drões de he­li­cóp­teros, acesso ime­diato às bases aé­reas de onde o ataque quí­mico po­deria ter par­tido, enfim, dados que po­de­riam ou não per­mitir uma con­clusão sobre a au­toria do aten­tado, con­si­de­rando-se apenas a versão anti-Assad.

Ig­no­rava-se to­tal­mente um exame que pu­desse com­provar a versão russa. Seria sim­ples: bas­taria ve­ri­ficar se havia ves­tí­gios de bombas de sarin no local onde, se­gundo os russos, se lo­ca­li­zava o de­pó­sito usado pelos ter­ro­ristas do Nusra para fa­bricar e ar­ma­zenar armas quí­micas.

O re­sul­tado seria de­fi­ni­tivo. Pro­varia se os russos es­tavam ou não certos. De­pois da reu­nião frus­trada por seu veto, os russos con­ti­nu­aram pe­dindo uma in­ves­ti­gação, desde que fosse in­de­pen­dente.

O que foi con­ve­ni­en­te­mente ig­no­rado. Para que? Já que, com a co­la­bo­ração da im­prensa livre, a opi­nião pú­blica mun­dial cru­ci­fi­cara Putin e Assad. E os norte-ame­ri­canos glo­ri­fi­cavam seu pre­si­dente ma­chão.

Mas uma per­gunta cru­cial con­ti­nuou sem res­posta. Por que Assad lan­çaria mão das cri­mi­nosas bombas de gás, o que lhe va­leria as con­de­na­ções glo­bais, se ele es­tava ga­nhando a guerra?

Foi o mesmo ra­ci­o­cínio do se­nador Randy Paul (li­ber­tário do Par­tido Re­pu­bli­cano). Ele lem­brou que além de estar em grande van­tagem na guerra, Assad con­tava com apoio russo e tinha, há poucos dias, ou­vido do se­cre­tário da De­fesa dos EUA que com­bater o go­verno Assad não era pri­o­ri­dade es­ta­du­ni­dense. E o se­nador Paul ainda co­mentou ainda: “só se ele (Assad) fosse o mais es­tú­pido dos di­ta­dores do mundo ou talvez o mais con­fuso”.

A ex­pli­cação de Washington não é das mais con­vin­centes. De­pois da der­rota em Aleppo, os exér­citos re­beldes te­riam se re­con­cen­trado e es­tavam na ofen­siva, tendo to­mado vá­rias al­deias. De­ses­pe­rado, Assad re­sol­vera apelar para uma saída ra­dical, ata­cando com os gases proi­bidos pelas leis in­ter­na­ci­o­nais.

Não foi bem assim. Antes do su­posto ataque quí­mico, as forças do go­verno já ha­viam de­tido a pro­gressão ad­ver­sária e co­me­çado a re­cu­perar as al­deias recém-per­didas. Seria mo­tivo para Assad en­trar em pâ­nico?

Um es­tudo de au­toria de re­no­mado ex­pert mos­trou que não havia provas da cul­pa­bi­li­dade do chefe do go­verno sírio.

Ele é The­o­dore Postol, pro­fessor emé­rito no Mas­sa­chuis­sets Ins­ti­tu­tute Tec­no­logy (MIT), uni­ver­si­dade de pres­tígio in­ter­na­ci­onal, e ex-con­se­lheiro ci­en­tí­fico do pró­prio de­par­ta­mento de De­fesa dos EUA.

O pro­fessor Postol re­a­lizou uma ava­li­ação das fotos nas quais se ba­seou o go­verno norte-ame­ri­cano para con­cluir pela versão do bom­bar­deio quí­mico por aviões de Assad.

Com base nesses do­cu­mentos, es­creveu um re­la­tório de 14 pá­ginas, con­tendo suas con­clu­sões.

De um modo geral, Postol afirmou: “revi cui­da­do­sa­mente os do­cu­mentos for­ne­cidos pela Casa Branca e acre­dito que eu possa de­mons­trar, sem dú­vida, que o go­verno dos EUA não dispõe de um co­nhe­ci­mento con­creto de que o go­verno sírio foi a origem dos ata­ques quí­micos a Khan Shei­koun, em 4 de abril de 2017”.

O ex­pert de­clara que a aná­lise das fotos que, se­gundo a Casa Branca, re­pre­sentam uma evi­dência da origem do lan­ça­mento de gás in­dica duas pos­si­bi­li­dades:

1) as fotos ci­tadas pela Casa Branca re­tratam cenas reais, sem ma­qui­agem.  Nesse caso, o ataque só po­deria ser dis­pa­rado por in­di­ví­duos em terra, não por avião;

2) ou as fotos foram muito pro­va­vel­mente en­ce­nadas, pre­pa­radas para pa­re­cerem as evi­dên­cias com que se pre­tendia en­ganar a opi­nião pú­blica.

Ne­nhuma con­clusão séria se pode fazer a partir delas, já que a re­gião é con­tro­lada pela Frente Al-Nusra, in­te­grante das forças anti-Assad. Por­tanto, só po­de­riam ser mem­bros da facção que pro­du­ziram a farsa.

Con­forme o re­la­tório, a única fonte ci­tada como evi­dência de que o ataque teria sido re­a­li­zado pela força aérea síria é uma cra­tera, lo­ca­li­zada numa es­trada ao norte da ci­dade al­ve­jada.

“Não há ab­so­lu­ta­mente ne­nhuma evi­dência”, afirma Postol, “de que a cra­tera foi ge­rada por uma mu­nição pro­je­tada para es­pa­lhar sarin de­pois de lan­çada de um avião”.

O mais pro­vável, con­tinua o re­la­tório, é que a mu­nição tenha sido co­lo­cada numa cra­tera já exis­tente por in­di­ví­duos em terra. Ou seja, por mi­li­ci­anos das forças re­beldes, pois são eles quem do­minam a ci­dade.

O pro­fessor Postol faz também um co­men­tário bas­tante re­ve­lador sobre uma foto, na qual al­guns ho­mens, com luvas mé­dicas e roupas frouxas, ins­pe­ci­onam o local onde teria caído uma bomba de sarin.

“Se hou­vesse sarin nesse local onde a foto foi ti­rada, essas pes­soas re­ce­be­riam doses le­tais ou de­bi­li­tantes de sarin. O fato delas es­tarem ina­de­qua­da­mente ves­tidas su­gere, ou com­pleta ig­no­rância das me­didas bá­sicas ne­ces­sá­rias para pro­teger-se contra o en­ve­ne­na­mento por sarin, ou a ci­ência de que o local não es­tava con­ta­mi­nado”.

Como até agora não se teve no­tí­cias de novas ví­timas do gás na ci­dade, a se­gunda al­ter­na­tiva é a mais viável. O que re­pre­senta mais um in­dício de que o ataque quí­mico via aviões do re­gime não passou de uma peça de ficção, fa­bri­cada pelos mi­li­tantes da Nusra para en­ganar a opi­nião pú­blica mun­dial.

O re­la­tório de The­o­dore Postol, ci­en­tista com cre­den­ciais ir­re­to­cá­veis, não foi con­tes­tado pela in­te­li­gência da se­cre­taria de De­fesa dos EUA. A afir­mação do seu ti­tular, o ge­neral James Mathis, ga­ran­tindo que as “evi­dên­cias” en­vi­adas de Khan Shei­koun são de­fi­ni­tivas, não valem grande coisa.

O ge­neral, ape­li­dado por seus co­legas de “ca­chorro louco”, tem um ardor be­li­ge­rante que passa da conta. Por isso mesmo, o então pre­si­dente Obama o de­mitiu quando Mattis propôs ata­ques a alvos no Irã em re­ta­li­ação a mortes de sol­dados dos EUA no Iraque, cau­sadas pelo Hiz­bollah, mo­vi­mento apoiado pelo go­verno de Teerã em sua luta contra a ocu­pação norte-ame­ri­cana do país.

Pre­fe­rimos acre­ditar que Postol está certo. Seu re­la­tório de­monstra que os EUA e se­gui­dores não dis­põem de evi­dên­cias para im­putar à avi­ação síria o ataque quí­mico de 4 de abril.

Não quer dizer que a versão russa seja ver­da­deira. Apenas que, mais uma vez, os EUA de Trump vi­o­laram leis in­ter­na­ci­o­nais.

E saíram im­punes, pelo con­trário, ga­nharam pontos nos co­ra­ções e mentes do Oci­dente.
Graças prin­ci­pal­mente à co­la­bo­ração da grande mídia, sempre pronta a fal­sear a ver­dade quando con­ve­ni­ente.

“Se você conta uma grande men­tira e a re­pete mil vezes, as pes­soas acre­di­tarão nela”, Jo­seph Go­eb­bels, eterno mi­nistro da pro­pa­ganda no Reich alemão.

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