‘Se uma obra pode influenciar o suicídio, temos de questioná-la’, diz psiquiatra sobre série de TV

Juliana Domingos de Lima – Série ’13 Reasons Why’ estreou na Netflix no dia 31 de março

Hannah Baker é uma adolescente recém-chegada a uma pequena cidade americana. Novo colégio, novas pessoas. Ela sofre com o bullying, situações de abuso e a indiferença dos colegas. Baker comete suicídio e deixa um pacote de fitas gravadas com os motivos de sua morte. Cada um dos lados da fita – treze, no total – aponta uma pessoa de seu convívio como uma das razões.

É essa a trama da série “13 Reasons Why”. Baseada no livro homônimo de Jay Asher (publicado no Brasil pela Ática como “Os 13 Porquês”), a série da Netflix foi lançada no dia 31 de março. Desde então, tem sido ora elogiada, ora classificada como irresponsável.

Ao mesmo tempo, trouxe à tona a discussão sobre transtornos mentais, sobre o suicídio de jovens e de que maneira ele deve ser abordado pela ficção de nosso tempo. Desde sua estreia, o número de pedidos de ajuda recebidos pelo Centro de Valorização da Vida quadruplicou.

Luís Fernando Tófoli, professor de psiquiatria no curso de medicina da Unicamp, foi uma das vozes a se manifestarem preocupadas com os efeitos da série. O médico publicou em sua página no Facebook no dia 9 de abril “13 parágrafos de alerta” sobre a série.

Abaixo, o Nexo fez 7 perguntas a Tófoli sobre a influência que a série pode ter sobre pessoas com risco de suicídio e como tratar dessas questões na ficção.

O suicídio de jovens é uma questão mais premente no Brasil hoje do que em décadas passadas?

Luís Fernando Tófoli  Essa é uma pergunta um pouco difícil de responder. Quando estamos falando de suicídio, a informação sempre é de um tempinho atrás. A única maneira de saber se a série teve um impacto [na taxa de suicídios] é ter acesso aos dados dos municípios, difíceis de levantar. Só vamos saber daqui uns dois, três anos.

A questão do aumento de suicídios entre adolescentes é um fenômeno mundial. Em parte, é um aumento proporcional. No Brasil, isso nunca chamou muito a atenção porque o número de mortes por violência e acidentes de trânsito é muito maior. A principal faixa etária [que morre por essas causas] é a de adolescentes e adultos jovens, principalmente do sexo masculino. Que também são os que mais se matam: mulheres tentam mais, mas homens se matam em maior número.

Historicamente, a faixa etária que mais se mata são idosos. Uma das razões é que eles têm a saúde mais frágil, então conseguir salvá-los é mais difícil. O que é muito preocupante no Brasil, segundo os últimos dados da OMS, é que os nossos números gerais [de suicídio em todas as faixas etárias] vêm subindo, contrariando a tendência mundial. Isso é atípico.

Nós não temos uma política nacional de prevenção do suicídio, nem no papel. Não tivemos um processo de formação de mídia e mesmo dos profissionais de saúde, tanto de atenção primária (nos postos de saúde) quanto de emergências.

A série pode influenciar jovens em situação de risco?

Luís Fernando Tófoli  A série comete vários erros, não recomendados por estudos que demonstram elementos que causam o contágio. O efeito de imitação, chamado em inglês de “copycat effect”, é usado para [designar] todo fenômeno que copia a mídia. Só mostrar o suicídio já é ruim. Mostrá-lo com uma alta carga emocional, plasticidade e impacto visual, como é feito na série, é pior ainda. Ainda que a personagem mostre que está doendo, que ela está sofrendo, fazer uma representação cinematográfica de uma cena de suicídio não é recomendável. Tem um risco associado a isso.

Outro pressuposto que a série traz é a ideia de culpar alguém pelo suicídio. No Brasil, está previsto [um crime] que é “indução ao suicídio”, que não é o que ela relata na série. Ela está contando razões de variável gravidade, a maioria muito grave, algumas gravíssimas, que supostamente a levaram a cometer suicídio. Essa ideia de encontrar culpados é ruim para cuidar de quem está vivo, de quem sobreviveu, e pode levantar fantasias de vingança nas pessoas e as empurrar na direção do suicídio.

Em uma série que pretende levantar questões tão cheias de carga emocional, há efeitos muito diversos, não existe uma única reação possível. Mas quando envolve risco a uma vida humana, é preciso tomar muito cuidado. A questão é essa. Se há a mínima chance de alguém ser influenciado por efeito de imitação a partir de uma obra de arte, a gente tem que questioná-la. Como médico, tenho que falar isso.

A notícia de que o número de pedidos de ajuda recebidos pelo Centro de Valorização da Vida quadruplicou desde o lançamento da série é positiva?

Luís Fernando Tófoli  É difícil avaliar esse dado. Ele certamente tem um componente positivo. Com a publicização da questão, o CVV ficou muito mais divulgado, de toda maneira. Não pela série em si, mas pela polêmica. Eu pessoalmente não acho que a maneira divulgada pela série [do contato do CVV] foi suficiente. Isso precisava ser divulgado no próprio episódio.

Esse aumento é positivo porque pessoas que não sabiam onde poderiam buscar ajuda conseguiram encontrar um lugar. Mas também pode indicar uma parcela de pessoas que talvez não estivessem contemplando essa possibilidade e passaram a contemplar porque assistiram. É muito dificil prever. Só vamos conseguir dizer isso quando tivermos acesso a se houve ou não aumento de mortalidade depois [da série].

De que forma a série poderia incentivar, de maneira eficaz, que uma pessoa em situação de risco busque ajuda?

Luís Fernando Tófoli  Eles tinham a obrigação de, em cada episódio, colocar uma legendinha: ‘se você está tendo algum problema, ligue 141’ [número do Centro de Valorização da Vida]. Se a série quer levantar a conscientização sobre o tema, vamos então, de fato, oferecer ferramentas a quem precisa. Não adianta ser só no extra do último episódio, ou no site da série.

Falar sobre suicídio – na mídia, em campanhas de prevenção, na ficção – ajuda a cuidar desse problema de saúde pública?

Luís Fernando Tófoli  É importante falar sobre esses assuntos. Não só sobre suicídio, mas sobre várias outras coisas geradoras de sofrimento mental que aparecem na série. Hannah Baker sofre bullying, assédio sexual, violência de gênero e estupro. Tudo isso são coisas muito importantes de serem discutidas. Mas, como eu falei, não é o caso de reproduzir a imagem do suicídio.

Existe o mito na própria saúde de que perguntar para um paciente sobre o risco de suicídio [dele] o empurra na direção do suicídio. Isso não é verdade. Na verdade, os estudos mostram que perguntar aumenta as chances de cuidar da pessoa e prevenir. As pessoas não têm coragem de dizer e quando o médico pergunta elas dizem, e aí você pode assumir alguma conduta em relação a isso: chamar a equipe de saúde mental, a família, fazer o tratamento e etc.

É muito importante conversar sobre isso. Muito mais do que mostrar: mostrar inclusive é negativo. Como psiquiatra, tenho que fazer isso cotidianamente. Tenho que perguntar sobre isso a todo novo paciente que atendo.

Como fazer isso? Como tratar o suicídio na ficção de uma forma responsável?

Luís Fernando Tófoli  Já tenho até na minha cabeça o que eu acho que consertaria a série. (risos) Vou me meter inclusive no roteiro. A série falha em não representar claramente nenhum transtorno mental. A única pessoa que tem um transtorno mental e é medicada é o protagonista, Clay. O suicídio é muito associado a transtornos mentais. Grande parte da prevenção é identificar e prevenir riscos de transtorno mental. O dado da OMS de que 90% das pessoas que se suicidam têm transtorno mental é polêmico, eu não acredito que seja tão alto.

De qualquer forma, quando a pessoa comete suicídio, é mais provável que ela tenha do que não tenha um transtorno mental. Fazendo uma simplificação, há o suicídio por transtorno mental e o suicídio impulsivo. Isso é muito importante porque a maior parte dos suicídios evitados é por identificação de transtornos mentais.

Eu colocaria na trama um personagem com transtorno mental e risco de suicídio que procura ajuda e é atendido. A série faz tudo ao contrário. Quando a menina consegue falar com o coordenador da escola [pedindo ajuda], não dá certo.  Essa parte é muito “deseducativa”. Sugere que procurar ajuda não resolve.

O pressuposto da série, essa ideia da vingança, é complicado. Isso mexe muito com fantasias. Mas o impacto negativo poderia ser mitigado com o que eu falei.

Temos uma cultura que romantiza o suicídio? De onde isso vem?

Luís Fernando Tófoli  Já há um bom tempo não acontecia. [O efeito de imitação] já é uma coisa razoavelmente conhecida. Tem havido um cuidado em relação a isso. Talvez o último, de grande impacto, tenha sido “A Sociedade dos Poetas Mortos”.

A ideia da solução definitiva, dramaticamente, resolve um monte de coisas. Cria um impacto, um plot twist, é de alto poder emocional, você pode culpar alguém da história. No caso de “A Sociedade…”, o “culpado” é o pai do protagonista, que não deixa o filho fazer teatro. Serve, como solução de narrativa, para várias coisas. É uma solução fácil. E acho que até por isso não se usava mais, se tornou um clichê. Mas no caso de “13 Reasons Why” é diferente, porque a narrativa da série é centrada totalmente nisso.

https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/04/12/‘Se-uma-obra-pode-influenciar-o-suicídio-temos-de-questioná-la’-diz-psiquiatra-sobre-série-de-TV

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