Racismo é a base para as políticas de imigração de Trump

Jamelle Bouie – Na segunda-feira, sem a presença habitual de repórteres e fotógrafos, o presidente Donald Trump assinou uma versão revisada e reduzida de sua agora infame proibição de entrada de cidadãos e refugiados, comumente chamada de “proibição de muçulmanos”.

As mudanças em relação à original são substanciais. O Iraque não está mais na lista de pontos de origem proibidos e o governo também deixa claro que residentes permanentes legais e atuais detentores de visto não estão impedidos segundo a nova versão.

Mas proíbe todos os refugiados de entrarem nos Estados Unidos pelos próximos 120 dias, reduz o teto de admissão de refugiados de 110 mil para 50 mil e abandonou a estipulação que dava prioridade aos refugiados de “minorias religiosas do país de origem do indivíduo”, promovida como uma abertura para cristãos e considerada uma das partes menos constitucionais da medida.

Mas como nota minha colega Dahlia Lithwick, ainda restam problemas sérios: assim como a medida anterior, a ordem revisada não justifica a proibição de pessoas da Síria, do Irã, da Líbia, da Somália, do Sudão e do Iêmen, os seis países de maioria muçulmana ainda submetidos à proibição de entrada no país.

Na segunda-feira, em uma coletiva de imprensa, o secretário de Justiça, Jeff Sessions, confirmou um relato de que “mais de 300” casos do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana) de terrorismo doméstico envolveram pessoas que entraram nos Estados Unidos como refugiados. Mas não há prova (e o governo não fornece evidência) de que os suspeitos vieram dos países listados, ou que os casos de fato resultaram em condenações ou crimes de fato.

Na verdade, a alegação, uma parte integral da ordem executiva (algo semelhante a uma medida provisória no Brasil) revisada, vai contra uma análise por parte do Departamento de Segurança Interna, que apontou que poucas pessoas dos países listados estiveram envolvidas em terrorismo assim que pisaram em solo americano. E aquelas que se radicalizaram o fizeram anos após sua chegada. Fora um exército de precognitivos, uma triagem tem utilidade limitada.

Os termos da nova proibição podem impedir uma repetição das cenas trágicas (e embaraçosas para o governo) que acompanharam a ordem original: residentes legais sendo enviados de volta nos aeroportos, pais separados de filhos, viajantes inocentes detidos e deportados sem nenhum motivo. Mas o que não faz é proteger os americanos de qualquer ameaça em particular. Se você acha que a ordem de viagem visa prevenir o terrorismo, então ainda é uma solução à procura de um problema.

Mas há outra forma de ver a medida: como peça central de uma agenda enraizada nas visões maniqueístas de seus principais autores, Stephen Miller e Stephen Bannon. Tanto Miller quanto Bannon são claros a respeito da visão deles para os Estados Unidos e francos sobre a visão deles do status quo.

Após a primeira proibição de viagem, o “Los Angeles Times” noticiou que ambos os homens viam as medidas anti-imigração do presidente como meios de combater o número crescente de “residentes nascidos no exterior” provenientes de países não europeus (isto é, não brancos). Natural da Califórnia, Miller há muito argumenta contra a imigração latina, como sendo uma força que mina o tecido sociocultural do país, definido implicitamente como branco e explicitamente como “judeu-cristão”.

Sua visão do islã é e sempre foi igualmente clara. “Todos nós já ouvimos sobre quão pacífica e benigna é a religião islâmica, mas não importa quantas vezes você diga isso, não muda o fato de que milhões de radicais muçulmanos celebrariam sua morte pelo simples fato de você ser cristão, judeu ou americano”, ele escreveu como estudante colegial no início dos anos 2000.

Igualmente, Bannon é um racista ideológico. É aparente seu apreço pelo presidente Andrew Jackson, cujas principais “realizações” foram a remoção forçada dos nativo-americanos em prol da “democracia do homem branco”, onde cidadania e seus privilégios eram reservados aos homens brancos, independente de classe social.

É fácil ver isso em seu antigo cargo como presidente-executivo da “Breitbart”, onde transformou o site em um paraíso online para antissemitas, nacionalistas brancos e outros elementos da extrema direita. E é ilustrada por sua retórica ao longo de toda sua carreira.

O “Huffington Post” relata que Bannon elogiou “O Campo dos Santos”, um romance francês grotescamente racista descrevendo um mundo onde a aparente invasão de refugiados indianos se torna a vanguarda de um levante global de não brancos contra os brancos.

“A coisa toda na Europa é sobre imigração”, ele disse em janeiro de 2016. “Hoje é uma questão global, esse tipo de Campo dos Santos global.”

O livro, semelhante ao tratado supremacista branco “O Diário de Turner” em sua descrição de uma guerra racial brutal, serve como alerta e chamado às armas para os europeus brancos (e presumivelmente aos americanos brancos), condenados como covardes e incompetentes por não terem matado os imigrantes quando tiveram a chance.

Se essa é a posição dos autores da proibição de viagem, então não há mistério sobre a motivação real para a ordem. Não terrorismo, do qual os refugiados e viajantes desses países não são um vetor sério nos Estados Unidos, mas sim nacionalismo étnico.

A proibição de viagem, assim como a repentina explosão de deportação, empregada indiscriminadamente contra todos os imigrantes sem documentos, “homens ruins” ou outros, é uma peça do esforço maior para mudar a demografia do país à força. Visa separar aqueles que pertencem daqueles que não (segundo Trump e seus apoiadores). Para “tornar a América grande de novo” a tornando branca de novo, ou mais precisamente, elevando a recompensa política de ser branco.

Enquanto navegamos pela corrupção, disfunção, fomentação de conspirações e ataques contra o funcionamento do governo, devemos ter cuidado para não nos esquecermos que também enfrentamos o radicalismo nacionalista branco do governo Trump, ávido em fazer o tempo voltar para trás no pluralismo e na democracia multirracial. Independente dos tribunais determinarem a legalidade constitucional desta mais recente proibição de muçulmanos, esses fatos não mudarão.

https://noticias.uol.com.br/midiaglobal/slate/2017/03/12/opiniao-racismo-e-a-base-para-as-politicas-de-imigracao-de-trump.htm

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