A construção da ignorância sobre a Petrobrás

Felipe Coutinho – Quem pensa que a Pe­tro­bras está que­brada, que a pro­dução do pré-sal é lenta, que o pré-sal é um mico e não tem valor ou que a ex­por­tação de pe­tróleo por mul­ti­na­ci­o­nais pode de­sen­volver o Brasil, está sendo en­ga­nado. É ví­tima da ig­no­rância pro­mo­vida pelos em­pre­sá­rios da co­mu­ni­cação, po­lí­ticos e exe­cu­tivos a ser­viço das mul­ti­na­ci­o­nais do pe­tróleo e dos bancos.

A ig­no­rância de muitos bra­si­leiros em re­lação aos prin­ci­pais temas que de­ter­minam a sua vida, e con­di­ci­onam o seu fu­turo, é re­sul­tado de uma cons­trução so­cial. Os in­te­resses dos ban­queiros, dos con­tro­la­dores das mul­ti­na­ci­o­nais do pe­tróleo e dos ren­tistas são pro­mo­vidos, em de­tri­mento da mai­oria que vive do tra­balho, es­tuda ou de­pende da se­gu­ri­dade so­cial.

A mai­oria não sabe que quase a me­tade do or­ça­mento pú­blico se des­tina a pagar os juros e a amor­ti­zação da dí­vida pú­blica. Des­co­nhece as ile­ga­li­dades e ile­gi­ti­mi­dades na for­mação dessa dí­vida que, se au­di­tada, po­deria ser re­du­zida. Ig­noram a es­tru­tura re­gres­siva dos im­postos, na qual os que vivem do sa­lário e re­cebem menos pagam mais. Não sabem que a pre­vi­dência so­cial é su­pe­ra­vi­tária con­si­de­rando os im­postos que são des­vin­cu­lados da se­gu­ri­dade para o pa­ga­mento dos juros da dí­vida. Também des­co­nhecem o pre­juízo ope­ra­ci­onal do Banco Cen­tral. Aqui trato das fa­lá­cias mais re­pe­tidas a res­peito da Pe­tro­bras.

O su­cesso na des­co­berta e de­sen­vol­vi­mento do pré-sal

A pro­víncia do pré-sal é a maior des­co­berta das úl­timas dé­cadas e está entre as mai­ores da his­tória, mas as re­servas ainda não foram di­men­si­o­nadas com maior grau de con­fi­ança. São es­ti­madas re­servas de 30 a 100 bi­lhões de barris de pe­tróleo equi­va­lente, mas este vo­lume pode ser su­pe­rado em função da na­tu­reza ge­o­ló­gica, do de­sen­vol­vi­mento tec­no­ló­gico e das con­di­ções ma­cro­e­conô­micas.

A Pe­tro­bras in­vestiu cen­tenas de mi­lhões de dó­lares e teve su­cesso ao com­provar a exis­tência do pré-sal, de acordo com o mo­delo ge­o­ló­gico de­sen­vol­vido pelo corpo téc­nico da com­pa­nhia. A des­co­berta pi­o­neira se deu no campo de Lula (an­te­ri­or­mente de­no­mi­nado Tupi), com re­servas re­cu­pe­rá­veis de 8,3 bi­lhões de barris de pe­tróleo equi­va­lente.

A com­pa­nhia anglo-ho­lan­desa Shell era ope­ra­dora do campo de Libra quando o de­volveu à Agência Na­ci­onal de Pe­tróleo e Bi­o­com­bus­tí­veis (ANP), de­cla­rando que não era co­mer­ci­al­mente viável. Mais tarde, com­pro­vado o mo­delo ge­o­ló­gico do pré-sal e, atu­ando como ope­ra­dora, a Pe­tro­bras al­cançou o pré-sal em Libra. Con­firmou a maior des­co­berta entre os campos do pré-sal com re­servas re­cu­pe­rá­veis entre 8 e 12 bi­lhões de barris de pe­tróleo equi­va­lente.

A pro­dução do pré-sal tem sido ace­le­rada em tempo re­corde na com­pa­ração com o de­sen­vol­vi­mento de ou­tras pro­vín­cias em águas pro­fundas, como o Golfo do Mé­xico, Mar do Norte ou Bacia de Campos. Já foi pro­du­zido mais de 1 bi­lhão de barris e o pré-sal re­pre­senta hoje quase 50% da pro­dução diária na­ci­onal.

A sina co­lo­nial ainda nos as­sola

Desde o Brasil Colônia até a Re­pú­blica a eco­nomia bra­si­leira se de­dica ao su­pri­mento de ma­té­rias primas para os cen­tros im­pe­riais. Pau brasil, cana de açúcar, mi­né­rios (ouro, prata e di­a­mantes), cacau, bor­racha, dendê, café. Hoje, ainda os mi­né­rios, a soja, a carne etc. Todos os ci­clos têm ca­rac­te­rís­ticas co­muns, be­ne­fi­ciam uma pe­quena elite, passam por pe­ríodos de as­censão, ápice e queda. Deixam o rastro de de­vas­tação am­bi­ental e so­cial, com a maior parte da po­pu­lação ex­cluída dos ga­nhos nos pe­ríodos prós­peros, mas her­deira do caos do pe­ríodo de­ca­dente. Pri­va­ti­zação dos lu­cros e so­ci­a­li­zação dos pre­juízos.

De­vemos usar a ri­queza do pe­tróleo bra­si­leiro na me­dida do nosso de­sen­vol­vi­mento, para aten­di­mento às nossas ne­ces­si­dades. De­sen­volver uma in­dús­tria forte e di­ver­si­fi­cada com par­ti­ci­pação e con­trole so­cial. Cons­truir a in­fra­es­tru­tura para pro­dução de ener­gias re­no­vá­veis e pre­parar nossa so­ci­e­dade para o fu­turo.

Ne­nhum país se de­sen­volveu ex­por­tando pe­tróleo por meio de mul­ti­na­ci­o­nais es­tran­geiras. Ne­nhum país, con­ti­nental e po­pu­loso como o Brasil, se de­sen­volveu ex­por­tando pe­tróleo. Existe cor­re­lação entre o de­sen­vol­vi­mento hu­mano (IDH) e o con­sumo de energia pri­mária per ca­pita (9).

Os erros do pas­sado não jus­ti­ficam os erros do pre­sente

Entre 2003 e 2014, a Pe­tro­bras as­sumiu riscos com a ele­vada ex­po­sição ao preço do dólar e a po­lí­tica mo­ne­tária do Banco Cen­tral dos EUA, o Fe­deral Re­serve (FED). As­sumiu riscos em re­lação ao câmbio, preço do pe­tróleo, ao alto nível de in­ves­ti­mento para ex­por­tação e à dí­vida em moeda es­tran­geira. A des­va­lo­ri­zação do Real e do Pe­tróleo não são eventos in­de­pen­dentes, são con­sequên­cias da va­lo­ri­zação do dólar, re­sul­tado do fim dos ci­clos de li­quidez mo­ne­tária do FED (Quan­ti­ta­tive Ea­sing, QE).

O grá­fico 1 apre­senta a forte cor­re­lação entre os preços do pe­tróleo e do Real em re­lação ao dólar


Grá­fico 1

O grá­fico 2 re­vela que de 2009 a 2014, com os ci­clos de li­quidez mo­ne­tária, através da compra e acú­mulo de tí­tulos pú­blicos e hi­po­te­cá­rios pelo FED, a moeda norte-ame­ri­cana se des­va­lo­riza. Com o fim dos ci­clos de in­jeção mo­ne­tária, em agosto de 2014, a moeda norte-ame­ri­cana se va­lo­riza com se­vero im­pacto na des­va­lo­ri­zação do real e do pe­tróleo.


Grá­fico 2

O plano es­tra­té­gico de 2011, por exemplo, de­pendia da ele­vação do en­di­vi­da­mento em dó­lares e con­tava com a pro­jeção de re­ceita fu­tura com a venda em reais no mer­cado in­terno e a ex­por­tação de pe­tróleo va­lo­ri­zado. Con­di­ções de­pen­dentes da des­va­lo­ri­zação do dólar e, por­tanto, vul­ne­rá­veis a sua apre­ci­ação.

O cor­reto, e mais pru­dente, seria pro­jetar o cres­ci­mento da pro­dução de pe­tróleo na me­dida da de­manda in­terna, agregar valor com a pro­dução de de­ri­vados, pe­troquí­micos, fer­ti­li­zantes etc. Além de subs­ti­tuir im­por­ta­ções para re­duzir a ne­ces­si­dade de dó­lares.

Além dos riscos as­su­midos, houve a su­bor­di­nação da Pe­tro­bras ao cartel dos em­prei­teiros, vi­a­bi­li­zada pelos po­lí­ticos tra­fi­cantes de in­te­resses e por exe­cu­tivos de alu­guel. Também re­le­vante foi o pre­juízo de­ri­vado da po­lí­tica de sub­sí­dios aos preços dos com­bus­tí­veis, com perdas entre 20 e 30 bi­lhões de dó­lares aos co­fres da com­pa­nhia.

Os erros do pas­sado não podem ser uti­li­zados para jus­ti­ficar os erros do pre­sente. É pos­sível re­duzir a dí­vida da Pe­tro­bras sem re­a­lizar as pri­va­ti­za­ções pre­vistas entre 2017 e 2021 de US$ 19,5 bi­lhões.

O Plano Es­tra­té­gico e de Ne­gó­cios vi­gente (PNG 2017-2021) prevê re­ceita de 179 bi­lhões de dó­lares entre 2017 e 2021. Deste mon­tante, 158 bi­lhões são re­sul­tado da ge­ração ope­ra­ci­onal após o pa­ga­mento dos di­vi­dendos. Ou­tros 19,5 bi­lhões da venda de ativos e 2 bi­lhões do caixa. Entre os usos, prevê 74 bi­lhões em in­ves­ti­mentos, 73 bi­lhões em amor­ti­za­ções e 32 bi­lhões em des­pesas fi­nan­ceiras. Como re­sul­tado, o plano an­te­cipa a re­dução da ala­van­cagem (razão entre a dí­vida lí­quida e a ge­ração de caixa após pa­ga­mento dos di­vi­dendos) de 4,5 para 2,5 bi­lhões em 2018.

De­mons­tramos que a Pe­tro­brás não pre­cisa vender ativos para re­duzir seu nível de en­di­vi­da­mento. Ao con­trário, na me­dida em que vende ativos ela reduz sua ca­pa­ci­dade de pa­ga­mento da dí­vida no médio prazo e de­ses­tru­tura sua ca­deia pro­du­tiva, em pre­juízo à ge­ração fu­tura de caixa, além de as­sumir riscos em­pre­sa­riais des­ne­ces­sá­rios.

Em “Existe al­ter­na­tiva para re­duzir a dí­vida da Pe­tro­brás sem vender seus ativos” de­mons­tramos que a ali­e­nação de ativos é uma es­colha po­lí­tica e em­pre­sa­rial, e re­ve­lamos que ela é des­ne­ces­sária.

Apre­sen­tamos al­ter­na­tiva que pre­serva a in­te­gri­dade cor­po­ra­tiva da Pe­tro­bras e sua ca­pa­ci­dade de in­vestir, na me­dida do de­sen­vol­vi­mento na­ci­onal e em su­porte a ele. En­quanto ga­rante a sus­ten­tação fi­nan­ceira, tanto pela re­dução da dí­vida quanto pela pre­ser­vação da ge­ração de caixa a médio prazo. A Ta­bela 1 re­sume o com­pa­ra­tivo.


Ta­bela 1

Na al­ter­na­tiva es­tu­dada a partir de pa­râ­me­tros pú­blicos da Pe­tro­brás, sem vender um único ativo, a ala­van­cagem po­deria cair de 4,5 para 3,1 em 2018, in­di­cador in­tei­ra­mente ra­zoável. A amor­ti­zação anual da dí­vida, com re­cursos de parte da ge­ração de caixa, re­sul­taria na re­dução da ala­van­cagem para 2,5 em me­ados de 2021. O es­tudo é con­ser­vador na me­dida em que não con­ta­bi­liza a ge­ração de caixa adi­ci­onal pela pre­ser­vação dos ativos ren­tá­veis que se pre­tende vender até 2018.

A pri­va­ti­zação era tra­tada pu­bli­ca­mente com o eu­fe­mismo do de­sin­ves­ti­mento, e ainda é tra­tada desta ma­neira no Plano Es­tra­té­gico (PNG 2017-2021). En­tre­tanto, desde que o Tri­bunal de Contas da União (TCU) e a Jus­tiça Fe­deral sus­pen­deram a venda dos ativos sem li­ci­tação, por meio da ne­go­ci­ação di­reta ou das cartas con­vites, a di­reção da Pe­tro­bras passou a tratar da pri­va­ti­zação sob o novo eu­fe­mismo das “par­ce­rias”.

Além do falso ar­gu­mento de que é ne­ces­sário pri­va­tizar para re­duzir a dí­vida, os apo­lo­gistas das par­ce­rias ar­gu­mentam que elas se­riam be­né­ficas porque tra­riam apren­di­zado tec­no­ló­gico e de gestão para a Pe­tro­bras. A des­co­berta do pré-sal e o su­cesso do seu de­sen­vol­vi­mento sob a li­de­rança da Pe­tro­bras, além do Fra­casso da Gestão das Mul­ti­na­ci­o­nais, re­velam que tais ar­gu­mentos re­fletem o perfil ide­o­ló­gico da­queles que os pro­fessam (21).

Pre­juízos con­tá­beis e Im­pair­ment

A opi­nião pú­blica é ma­ni­pu­lada em função dos pre­juízos con­tá­beis re­gis­trados nos ba­lanços de 2014, 2015 e 2016 (ter­ceiro tri­mestre, ba­lanço anual ainda não con­so­li­dado). O pre­juízo con­tábil é re­sul­tado da re­a­va­li­ação dos ativos por meio dos testes de re­cu­pe­ração de valor (im­pair­ment).

Os in­te­res­sados em pro­palar a “quebra da Pe­tro­bras” e jus­ti­ficar a venda dos seus ativos se fixam nos pre­juízos con­tá­beis e es­quecem dos pu­jantes re­sul­tados ope­ra­ci­o­nais que re­velam a imensa ca­pa­ci­dade de ge­ração de ri­queza da com­pa­nhia. Também não con­si­deram as altas e cres­centes re­servas em caixa e que a sim­ples va­lo­ri­zação do real pe­rante o dólar já re­duziu sig­ni­fi­ca­ti­va­mente a dí­vida.

Em 31 de de­zembro de 2015, cerca de 84% do en­di­vi­da­mento eram de­no­mi­nados em ou­tras mo­edas que não o real (74% em dólar norte-ame­ri­cano). Da dí­vida total de 126 bi­lhões, 93 bi­lhões eram mar­cados em dó­lares. Com a va­lo­ri­zação da co­tação do real de 3,95 para 3,07 para cada dólar, entre 30/12/15 e 15/2/17, po­demos es­timar uma re­dução equi­va­lente a 82 bi­lhões de reais ou 26,7 bi­lhões de dó­lares na dí­vida (24).


Ta­bela 2

A re­dução da dí­vida pela sim­ples apre­ci­ação do real é 37% maior do que a Pe­tro­bras pla­neja ar­re­cadar com a pri­va­ti­zação que re­sul­tará na saída das ati­vi­dades de pro­dução de bi­o­com­bus­tí­veis, dis­tri­buição de GLP (gás de pe­tróleo li­que­feito), pro­dução de fer­ti­li­zantes e das par­ti­ci­pa­ções em pe­troquí­mica. Também da re­es­tru­tu­ração no seg­mento de gás, cuja es­tra­tégia é ade­quar a par­ti­ci­pação da com­pa­nhia e, no setor de energia, re­or­ga­nizar as par­ti­ci­pa­ções so­ci­e­tá­rias.

Assim como das par­ce­rias e de­sin­ves­ti­mentos que nos pró­ximos dois anos devem somar US$ 19,5 bi­lhões, por meio de cres­centes par­ce­rias na área de Ex­plo­ração e Pro­dução, além de Re­fino, Trans­porte, Lo­gís­tica, Dis­tri­buição e Co­mer­ci­a­li­zação (PNG 2017-2021).

Até 2014, antes das re­ve­la­ções da cor­rupção que vi­timou a Pe­tro­bras, as con­sul­to­rias ditas in­de­pen­dentes apro­varam todos os ba­lanços anuais, sem res­salvas. Com as re­ve­la­ções da Ope­ração Lava Jato se viram em sério risco de so­frerem pro­cessos que po­de­riam re­sultar em multas e res­sar­ci­mentos mi­li­o­ná­rios.

Se­gundo o jor­na­lista Luis Nassif, se re­fe­rindo à atu­ação da con­sul­tora PwC na au­di­toria do ba­lanço de 2014:

“Em cir­cuns­tân­cias nor­mais ela ana­li­saria o ba­lanço da Pe­tro­bras, le­van­taria as con­di­ções de mer­cado, prin­ci­pal­mente a queda subs­tan­cial no preço do barril de pe­tróleo, e obri­garia a em­presa a aplicar o teste do im­pair­ment nos seus ativos.

Como as co­ta­ções de pe­tróleo caíram pela me­tade, evi­taria lançar toda a di­fe­rença em um ba­lanço apenas, mesmo porque não havia ainda in­for­ma­ções pre­cisas sobre o nível em que as co­ta­ções de pe­tróleo se es­ta­bi­li­za­riam.

Se­riam feitos al­guns ajustes par­ciais e se di­luiria o res­tante do ajuste pelos anos se­guintes, de­pen­dendo do com­por­ta­mento do pe­tróleo”.

O re­sul­tado foi o atraso na di­vul­gação do ba­lanço au­di­tado e a apli­cação do im­pair­ment como ma­neira in­di­reta de aferir as perdas pelo so­bre­preço re­sul­tado da cor­rupção, apli­cação ques­ti­o­nável tendo em vista que no mesmo ba­lanço de 2014 a Pe­tro­bras es­timou perdas di­retas re­la­tivas à ex­tra­po­lação das pro­pinas para todos os con­tratos com em­presas en­vol­vidas na Lava Jato che­gando ao mon­tante de 6,3 bi­lhões de reais.

Ainda se­gundo Nassif:

“Ora, se o teste do im­pair­ment te­o­ri­ca­mente cal­culou o valor justo dos ativos, se se des­contar o su­posto valor da cor­rupção, ha­verá uma su­ba­va­li­ação e o ba­lanço não re­fle­tirá a si­tu­ação da em­presa. No caso da Pe­tro­bras, o teste do im­pair­ment levou a uma baixa con­tábil de R$ 44,3 bi­lhões; o tal cál­culo ale­a­tório da cor­rupção, a mais R$ 6,3 bi­lhões”.

Se­gundo Do­min­gues:

“Na aná­lise da apli­cação do teste na in­dús­tria pe­tro­lí­fera, ficou evi­dente o risco exis­tente na ati­vi­dade de E&P, o que atribui a seus ativos uma in­cer­teza na re­a­li­zação dos fluxos de caixa fu­turos. E, por fim, na aná­lise de como as va­riá­veis se­le­ci­o­nadas se re­la­ci­onam e, con­se­quen­te­mente, in­flu­en­ciam as Des­pesas de Im­pair­ment de E&P, ob­servou-se, prin­ci­pal­mente, a re­lação in­versa dessa va­riável com os va­lores das Des­co­bertas. Esses re­sul­tados dão in­dí­cios de que a va­riável ‘Des­co­berta’ deve ser pre­missa le­vada em con­si­de­ração no cál­culo do valor de re­cu­pe­ração de um ativo de E&P”.

Se­gundo Lima:

“Res­salte-se, con­tudo, que os ativos re­fe­rentes ao Pré-Sal não estão de­vi­da­mente va­lo­rados no ativo con­tábil da Pe­tro­bras. Ativos da área de Abas­te­ci­mento, como al­gumas re­fi­na­rias já amor­ti­zadas, também não estão de­vi­da­mente pre­ci­fi­cados. Os ele­vados vo­lumes re­cu­pe­rá­veis de pe­tróleo do Pré-Sal, que, atu­al­mente, são o grande ‘ativo’ da Pe­tro­bras, ainda estão no re­ser­va­tório e não podem ser con­ta­bil­mente re­gis­trados no ativo da em­presa. O pe­tróleo so­mente passa a ser pro­pri­e­dade da Pe­tro­bras de­pois de ex­traído. Com as im­por­tantes des­co­bertas no Pré-Sal, as re­servas da Pe­tro­bras devem ul­tra­passar 40 bi­lhões de barris. Vale re­gis­trar, ainda, que ou­tras áreas de­verão au­mentar sig­ni­fi­ca­ti­va­mente as re­servas da em­presa. Ne­nhuma em­presa de pe­tróleo tri­plica suas re­servas e au­menta sua pro­dução sem grandes in­ves­ti­mentos e, con­se­quen­te­mente, sem au­mento, no curto prazo, do seu en­di­vi­da­mento e da sua ala­van­cagem”.

A re­lação con­tra­di­tória entre a Pe­tro­bras e as con­sul­toras “in­de­pen­dentes” desde as re­ve­la­ções da Lava Jato, a po­lê­mica apli­cação do teste de im­pair­ment para in­di­re­ta­mente es­timar o so­bre­preço nos ativos, a es­ti­ma­tiva ex­tra­po­lada das pro­pinas re­gis­tradas, re­dun­dan­te­mente, como pre­juízo no ba­lanço de 2014, a des­con­si­de­ração das des­co­bertas do pré-sal no cál­culo do valor de re­cu­pe­ração dos ativos do E&P e o in­dis­far­çável in­te­resse em de­pre­ciar os ativos e a si­tu­ação fi­nan­ceira da Pe­tro­bras para jus­ti­ficar pe­rante a opi­nião pú­blica a venda aço­dada de seus ativos nos per­mite ques­ti­onar o in­te­resse dos agentes en­vol­vidos.

O valor do pe­tróleo e o fim do pe­tróleo ba­rato de se pro­duzir

O pe­tróleo é uma mer­ca­doria es­pe­cial, na me­dida em que não tem subs­ti­tutos em equi­va­lente qua­li­dade e quan­ti­dade. Sua ele­vada den­si­dade ener­gé­tica e a ri­queza de sua com­po­sição, em or­gâ­nicos di­fi­cil­mente en­con­trados na na­tu­reza, con­ferem van­tagem econô­mica e mi­litar àqueles que o pos­suem.

A so­ci­e­dade que co­nhe­cemos, sua com­ple­xi­dade, sua or­ga­ni­zação es­pa­cial con­cen­trada, sua pro­du­ti­vi­dade in­dus­trial e agrí­cola, o ta­manho da su­pe­res­tru­tura fi­nan­ceira em re­lação às es­feras in­dus­trial e co­mer­cial, foram er­guidos e de­pendem do pe­tróleo.

O fim do pe­tróleo ba­rato de se pro­duzir e a re­dução do ex­ce­dente ener­gé­tico e econô­mico da in­dús­tria pe­tro­leira está trans­for­mando, ace­le­ra­da­mente, a so­ci­e­dade.

É ne­ces­sário ga­rantir a pro­pri­e­dade do pe­tróleo e ficar com seu valor de uso. Atender as ne­ces­si­dades dos bra­si­leiros e er­guer a in­fra­es­tru­tura dos re­no­vá­veis para uma nova or­ga­ni­zação pro­du­tiva e so­cial.

Quem des­denha quer vender?

O co­nhe­cido di­tado po­pular afirma que “quem des­denha quer com­prar”. É es­tranho ob­servar a pos­tura dos di­ri­gentes da Pe­tro­bras cuja pri­o­ri­dade é a venda de ativos, mas em de­cla­ra­ções pú­blicas os de­pre­ciam. Quando afirmam que o pré-sal foi in­de­vi­da­mente en­deu­sado, que as uni­dades pe­troquí­micas são an­ti­e­conô­micas ou que a Pe­tro­bras é ge­ne­ti­ca­mente in­capaz de atuar em bi­o­com­bus­tí­veis. Neste caso, será que quem des­denha quer vender?

Pro­duzir fer­ti­li­zantes e bi­o­com­bus­tí­veis é bom para a Bunge, mas para a Pe­tro­bras é ruim? Ou es­taria a Pe­tro­bras com­pe­tindo pelo mer­cado pre­ten­dido pela Bunge?

Existe uma porta gi­ra­tória pela qual tran­sitam os exe­cu­tivos entre as em­presas e bancos pri­vados e os cargos de di­reção na ad­mi­nis­tração pú­blica di­reta e in­di­reta. Será que quando atra­vessam a porta e as­sumem a di­reção de uma es­tatal eles se des­vin­culam dos in­te­resses pri­vados? Será que quando voltam à ini­ci­a­tiva pri­vada não são me­lhor re­ce­bidos em função dos re­sul­tados ob­tidos na gestão da es­tatal em be­ne­fício dos in­te­resses pri­vados? Pa­rece que a ver­dade está no dito po­pular e quem des­denha quer mesmo é com­prar.

Re­fe­rên­cias:

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http://​jor​nalg​gn.​com.​br/​blog/​jose-​carlos-​lima-​spin/​a-​cor​rupc​ao-​e-​o-​sistema-​da-​divida-​2015-​por-​maria-​lucia-​fat​tore​lli

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Pa­lestra “Pro­postas da As­so­ci­ação dos En­ge­nheiros da Pe­tro­brás (AEPET)”, Fe­lipe Cou­tinho, 2016 https://​fel​ipec​outi​nho2​1.​wor​dpre​ss.​com/​2016/​11/​19/​pal​estr​a-​pro​post​as-​da-​ass​ocia​cao-​dos-​eng​enhe​iros-​da-​pet​robr​as-​aepet/

https://​fred.​stl​ouis​fed.​org/

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O His­tó­rico Cerco à Pe­tro­bras e a Cor­rupção, Fe­lipe Cou­tinho, 2015 https://​fel​ipec​outi​nho2​1.​wor​dpre​ss.​com/​2015/​01/​23/​o-​his​tori​co-​cerco-​a-​pet​robr​as-​e-​a-​cor​rupc​ao/

Re­ceita para De­fender a Pe­tro­bras Contra a Cor­rupção, Fe­lipe Cou­tinho, 2015 https://​fel​ipec​outi​nho2​1.​wor​dpre​ss.​com/​2015/​02/​08/​receita-​para-​def​ende​r-​a-​pet​robr​as-​contra-​a-​cor​rupc​ao/

Pro­postas para o For­ta­le­ci­mento Ins­ti­tu­ci­onal e De­fesa da Pe­tro­bras Contra a Cor­rupção, Fe­lipe Cou­tinho, 2015 https://​fel​ipec​outi​nho2​1.​wor​dpre​ss.​com/​2015/​03/​19/​pro​post​as-​para-​o-​for​tale​cime​nto-​ins​titu​cion​al-​e-​defesa-​da-​pet​robr​as-​contra-​a-​cor​rupc​ao/

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Existe al­ter­na­tiva para re­duzir a dí­vida da Pe­tro­brás sem vender seus ativos, Fe­lipe Cou­tinho e José Carlos de Assis, 2016 https://​fel​ipec​outi​nho2​1.​wor​dpre​ss.​com/​2016/​10/​06/​existe-​alt​erna​tiva-​para-​reduzir-​a-​divida-​da-​pet​robr​as-​sem-​vender-​seus-​ativos/

Pa­lestra “Do pe­tróleo ao valor ex­ce­dente pro­du­zido por meio da Pe­tro­brás”, Fe­lipe Cou­tinho, 2015 https://​fel​ipec​outi​nho2​1.​wor​dpre​ss.​com/​2015/​09/​19/​pal​estr​a-​do-​pet​role​o-​ao-​valor-​exc​eden​te-​pro​duzi​do-​por-​meio-​da-​pet​robr​as/

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O fra­casso da gestão das mul­ti­na­ci­o­nais do pe­tróleo e as li­ções para a Pe­tro­bras, Fe­lipe Cou­tinho, 2016 https://​fel​ipec​outi​nho2​1.​wor​dpre​ss.​com/​2016/​06/​10/​o-​fra​cass​o-​da-​gestao-​das-​mul​tina​cion​ais-​do-​pet​role​o-​e-​as-​licoes-​para-​a-​pet​robr​as/

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Dis­ser­tação de Mes­trado, Perda do valor de re­cu­pe­ração em ativos de ex­plo­ração e pro­dução de pe­tróleo e gás, João Carlos de Aguiar Do­min­gues, USP, 2010 http://​www.​teses.​usp.​br/​teses/​dis​poni​veis/​96/​96133/​tde-​060​5201​0-​140536/​pt-​br.​php

http://​bra​silp​ensa​dor.​blo​gspo​t.​com.​br/​2016/​04/​a-​ver​dade​ira-​his​tori​a-​do-​balanco-​da.​html

http://correiocidadania.com.br/2-uncategorised/12361-a-construcao-da-ignorancia-sobre-a-petrobras

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