1917-2017: da luz para as sombras

Mário Maestri – Pe­tro­grado, 8 de ou­tubro, 1917. A no­tícia per­correu o mundo, en­chendo mi­lhões de seres hu­manos de es­pe­rança. Os tra­ba­lha­dores ha­viam to­mado o poder na ca­pital po­lí­tica da Rússia. A chama bru­xu­le­ante que tre­mu­lara por se­manas em Paris, em 1871, in­cen­diava as ci­dades e os campos sem fim do an­tigo im­pério dos czares. A nova ordem ofe­recia a paz, na guerra in­te­rim­pe­ri­a­lista, e a di­visão dos la­ti­fún­dios, para os cam­po­neses. Aos ope­rá­rios, en­tre­gava o con­trole das grandes fá­bricas e, so­bre­tudo, o do­mínio do novo Es­tado, a ser go­ver­nado por con­se­lhos ope­rá­rios lo­cais, re­gi­o­nais, na­ci­o­nais.

O do­mínio do grande ca­pital dava lugar ao go­verno e à ordem dos tra­ba­lha­dores das ci­dades e dos campos. A pro­messa teó­rico-ci­en­tí­fica de Marx e En­gels do mundo ra­ci­onal re­or­ga­ni­zando a ir­ra­ci­o­na­li­dade do ca­pital punha o pé na terra e vi­rava o mundo de pernas para o ar. So­bre­tudo, a re­vo­lução russa dizia-se a van­guarda da re­vo­lução eu­ro­peia, im­pres­cin­dível à sua pró­pria con­so­li­dação, axioma do mar­xismo re­vo­lu­ci­o­nário. A ordem ra­ci­onal do mundo se con­so­li­daria apenas com o fim total da de­sordem ca­pi­ta­lista. Seria guerra à morte, sem quartel!

No mundo, o co­ração fra­terno dos tra­ba­lha­dores en­cheu-se de jú­bilo e es­pe­rança e a alma dura dos ca­pi­ta­listas foi to­mada do es­pí­rito tra­di­ci­onal de vin­gança sem fim contra todos que se le­van­tavam contra os pri­vi­le­gi­ados, desde o grito de Pro­meteu contra o Olimpo. Os re­vo­lu­ci­o­ná­rios russos or­ga­ni­zaram-se para con­so­lidar o poder so­vié­tico nos ter­ri­tó­rios do ex-im­pério e ex­pandi-lo no mundo. En­tre­mentes, era ne­ces­sário sair da guerra, re­or­ga­nizar a pro­dução, con­so­lidar os con­se­lhos dos tra­ba­lha­dores, a alma da ordem so­ci­a­lista.

Tra­ba­lha­dores e tra­ba­lha­doras dos campos e das ci­dades rom­piam as amarras do atraso, do pre­con­ceito, do obs­cu­ran­tismo, na cons­trução do pre­sente e fu­turo. Des­blo­que­avam-se as forças ma­te­riais e es­pi­ri­tuais, su­pe­rando a ilu­mi­nação do es­pí­rito hu­mano re­a­li­zada pela Re­vo­lução de 1789. Em ter­rí­veis con­di­ções ma­te­riais, o ci­nema, a li­te­ra­tura, a mú­sica, a po­esia, a ar­qui­te­tura, a lin­guís­tica, as re­la­ções hu­manas as­su­miam vi­ta­li­dade única.

Antes de so­ço­brar, a Ale­manha im­pe­ri­a­lista impôs duras con­di­ções para con­ceder a paz ao go­verno so­vié­tico, já quase sem exér­cito – os sol­dados-cam­po­neses vol­tavam ao campo, eno­jados com a he­ca­tombe im­pe­ri­a­lista e in­te­res­sados na par­ti­ci­pação das terras. Ter­mi­nada a Pri­meira Guerra, foi im­posto blo­queio total à Rússia e tropas fran­cesas, bri­tâ­nicas, ja­po­nesas, es­ta­du­ni­denses, ca­na­denses, ita­li­anas, alemãs, turcas, gregas etc. uniram-se ao Exér­cito Branco para des­truir o poder ope­rário em se­mente.

Sob a di­reção de León Trotsky, o Exér­cito Ver­melho se cons­truiu ali­men­tando-se com a carne viva da re­vo­lução. A mí­sera pro­dução in­dus­trial foi mo­no­po­li­zada pelo es­forço de guerra. O con­fisco das ma­gras se­aras cam­po­nesas ali­mentou as tropas so­vié­ticas. Sob a agi­tação re­vo­lu­ci­o­nária em suas filas e países e os golpes do Exér­cito Ver­melho, a in­ter­venção in­ter­na­ci­onal re­cuou e, em ou­tubro de 1922, os exér­citos brancos foram ven­cidos. O preço pago foi ter­rível. Mul­ti­dões de ca­le­jados pro­le­tá­rios e pro­le­tá­rias, de fuzil no ombro e a es­trela ver­melha no co­ração, caíram de­fen­dendo a ordem so­vié­tica. A pro­dução in­dus­trial ago­ni­zava. A fome e o de­sem­prego des­clas­savam os tra­ba­lha­dores que re­tor­navam ao mundo rural.

Em 1923, León Trotsky pu­blicou en­saio pro­fé­tico, O Curso Novo, de­nun­ci­ando a bu­ro­cra­ti­zação de um Par­tido Co­mu­nista que di­rigia a nova ordem em nome de pro­le­ta­riado já ine­xis­tente. Era ár­vore se pe­tri­fi­cando sem seiva que a ali­men­tasse. Pa­ra­doxo que, dé­cadas mais tarde, en­go­liria a re­vo­lução. Trotsky propôs in­dus­tri­a­li­zação ace­le­rada para res­ta­be­lecer o pro­le­ta­riado e, assim, o poder so­vié­tico, po­lí­tica re­jei­tada por bu­ro­cracia que se lo­cu­ple­tava com o en­saio de res­tau­ração ca­pi­ta­lista em curso.

Em 1923, a in­sur­reição alemã fra­cassou e a re­vo­lução re­cuou no mundo. Em 21 de ja­neiro de 1924, morria Lenin, o cri­ador do Par­tido Bol­che­vique. Em con­so­li­dação, a ordem bu­ro­crá­tica ex­pulsou Trotsky da URSS, em 22 de ja­neiro de 1927 e, nos anos se­guintes, pro­cedeu ter­rível apa­ga­mento da me­mória da re­vo­lução, eli­mi­nando fi­si­ca­mente de­zenas de mi­lhares de ve­lhos re­vo­lu­ci­o­ná­rios. Em 1929, te­mendo a dis­so­lução do seu poder, a bu­ro­cracia avançou o pro­grama pro­posto de in­dus­tri­a­li­zação ace­le­rada, de forma au­to­ri­tária e ad­mi­nis­tra­tiva, com co­le­ti­vi­zação for­çada e ar­ti­fi­cial dos campos que, por dé­cadas, feriu o mundo rural. A de­mo­cracia e a gestão ope­rária já eram la­dai­nhas ri­tuais.

Guiada por seus in­te­resses ime­di­atos, a bu­ro­cracia re­jeitou a re­vo­lução mun­dial como ne­ces­si­dade, pro­pondo a con­so­li­dação do so­ci­a­lismo na URSS iso­lada. O exemplo da su­pe­ri­o­ri­dade da so­ci­e­dade so­vié­tica poria abaixo a ordem im­pe­ri­a­lista, di­ziam. Após a II Guerra, apoiou a ex­tensão da re­vo­lução bu­ro­cra­ti­zada em países vi­zi­nhos para de­fender suas fron­teiras. A força e o im­pulso da re­vo­lução, do pla­ne­ja­mento e da na­ci­o­na­li­zação da pro­pri­e­dade im­pul­si­o­naram a eco­nomia em forma de­cres­cente, li­mi­tada esta úl­tima pelas fron­teiras na­ci­o­nais, pelo pa­ra­si­tismo bu­ro­crá­tico, pelo ataque in­ces­sante do im­pe­ri­a­lismo e de seus servis ali­ados, os par­tidos so­ci­a­listas e so­ci­al­de­mo­cratas.

Em 1989, a URSS dis­solveu-se sob a pressão do grande ca­pital e a con­trar­re­vo­lução e res­tau­ração ca­pi­ta­lista se es­prai­aram através do mundo, dis­sol­vendo os es­tados so­ci­a­listas, cor­roídos pela co­la­bo­ração com o ca­pital e pela bu­ro­cracia – Polônia, Re­pú­blica De­mo­crá­tica da Ale­manha, Vi­etnã, China etc. Pro­cesso hoje em seus der­ra­deiros mo­mentos em Cuba e na Co­réia do Norte. A res­tau­ração ca­pi­ta­lista não foi o fim da his­tória pro­posto pelos apo­lo­gistas da ir­ra­ci­o­na­li­dade. Mas fez o seu re­lógio en­golir dra­ma­ti­ca­mente sete dé­cadas, avan­çando para um tempo des­co­nhe­cido de pro­fundas som­bras.

No início do sé­culo 20, Rosa Lu­xem­burgo lem­brou que a luta era entre o so­ci­a­lismo e a bar­bárie, e não entre o so­ci­a­lismo e o ca­pi­ta­lismo. Marx pro­pu­sera que a não su­pe­ração de ordem his­to­ri­ca­mente es­go­tada, le­vava à sua con­so­li­dação senil e agô­nica. Ao ler, quando es­tu­dante, na ino­cente Porto Alegre de 1967, essa pre­visão, ma­te­ri­a­lizei-a com di­fi­cul­dade. Minha imagem do­mi­nante de bár­baro era o guer­reiro loiro de tran­ci­nhas que in­va­dira Roma.

Hoje, com­pre­en­demos em forma ime­diata o con­ceito “bar­bárie mo­derna”. Uma so­ci­e­dade onde, muito logo, os 9% mais ricos con­tro­larão 91% da ri­queza mun­dial. Um mundo fei­to­ri­zado por ór­gãos su­pra­na­ci­o­nais, que tem no de­sem­prego a so­lução dos males econô­micos. Que per­mite todo tipo de en­fer­mi­dades – AIDS, febre ama­rela, dengue, zika etc. – para en­gordar o ne­gócio far­ma­cêu­tico e mé­dico. Que fo­menta a ig­no­rância, o obs­cu­ran­tismo, o fa­na­tismo para poupar com a edu­cação e ma­ni­pular as po­pu­la­ções. Que impõe a ordem senil através da fúria bé­lica. Que avança in­di­fe­rente à de­gra­dação que ga­lopa a frágil crosta em que ha­bi­tamos, porque o ca­pital deve fru­ti­ficar agora, mesmo que no amanhã do­mine a morte. Uma re­a­li­dade em que fra­ter­ni­dade é pa­la­vrão.

Em 1917, o mundo ilu­minou-se de es­pe­ranças, em ma­dru­gada que se anun­ciava en­so­la­rada. Hoje, cem anos mais tarde, som­bras es­pessas ame­açam-nos com uma noite sem fim.

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