“O Sahel concentra todas as crises do mundo”

Barbara Reis – Sahel sig­ni­fica “fron­teira” e na África ganha a forma de gi­gan­tesco cin­turão de aridez, onde cabem 22 países. Sinô­nimo de so­fri­mento pro­lon­gado, o Sahel é mar­cado pela seca, pela crô­nica falta de ali­mentos, por guerras e con­flitos an­ces­trais. Para com­plicar, com a crise líbia, o de­serto do Saara passou a es­conder ter­ro­ristas e gan­gues do crime or­ga­ni­zado in­ter­na­ci­onal. Dez mi­lhões de pes­soas, entre as quais 1,4 mi­lhão de cri­anças, de­pendem 100% da ajuda in­ter­na­ci­onal.

Em linha ho­ri­zontal, o Sahel vai da Mau­ri­tânia à Eri­treia e in­clui países com tí­tulos ex­tremos, como o Níger (o país mais pobre do mundo) e o Mali (a maior taxa de na­ta­li­dade do pla­neta). “O pro­blema do Sahel é o nosso pro­blema”, diz Ángel Lo­sada, o em­bai­xador es­pa­nhol que é o atual Re­pre­sen­tante Es­pe­cial da União Eu­ro­peia para o Sahel. Está a três horas da Eu­ropa e é um pro­blema que só au­menta. Em 1950, havia 30 mi­lhões de pes­soas no Sahel e em 2000 havia 367 mi­lhões. Hoje há quase 500 mi­lhões e as pre­vi­sões dizem que em 2050 o nú­mero vai du­plicar.

Nesta se­gunda-feira, os chefes de Es­tado do G5, a recém-criada ali­ança que junta Mau­ri­tânia, Mali, Bur­kina Faso, Níger e Chade, reu­niram-se em Ba­mako para uma reu­nião ex­tra­or­di­nária. O em­bai­xador Lo­sada es­teve em Lisboa para um se­mi­nário no Mi­nis­tério dos Ne­gó­cios Es­tran­geiros sobre o Sahel, que juntou vá­rios em­bai­xa­dores da União Eu­ro­peia, e logo a se­guir partiu para o Mali. Um dos planos do G5, que a UE apoia, é a cri­ação de um exér­cito comum re­gi­onal para lutar contra o crime or­ga­ni­zado e o ter­ro­rismo.

O Sahel é uma pri­o­ri­dade eu­ro­peia re­cente. Quais foram os pro­gressos nestes três anos da nova es­tra­tégia?

Pri­meiro, temos de co­locar o Sahel no topo das agendas in­ter­na­ci­o­nais. Ou seja, ex­plicar que a se­gu­rança na Eu­ropa de­pende muito da se­gu­rança no Sahel. Com a crise na Líbia, as re­la­ções de vi­zi­nhança mu­daram. Mas a es­tra­tégia eu­ro­peia para o Sahel não é nova. O posto só tem três anos, mas a po­lí­tica é de 2011. O posto foi criado de­pois da crise no Mali. O meu pre­de­cessor ne­go­ciou o pro­cesso de paz no Mali e com isso ga­nhou uma visão mais alar­gada do pro­blema. A União Eu­ro­peia foi a pri­meira a adotar uma es­tra­tégia para o Sahel. Agora, há 16! A do FMI e muitas ou­tras.

A nossa es­tra­tégia centra-se na ideia de que não há se­gu­rança sem de­sen­vol­vi­mento e não há de­sen­vol­vi­mento sem se­gu­rança. E di­rige-se a cinco países, que para os eu­ro­peus são o nú­cleo duro do Sahel: Mau­ri­tânia, Mali, Bur­kina Faso, Níger e Chade. No G5, todos estão cons­ci­entes de que se não houver paz no Mali, não há paz no Sahel. Não se pode olhar de forma iso­lada ou na­ci­onal para ques­tões como a se­gu­rança ou o con­tra­ter­ro­rismo, a luta contra o trá­fico de drogas.

Em termos de ameaça à se­gu­rança eu­ro­peia, o Sahel é mais im­por­tante do que qual­quer outra re­gião em África?

O Sahel tem um im­pacto di­reto na nossa se­gu­rança. Nestes meses, vi­sitei todos os países me­di­ter­râ­nicos e vá­rios do centro e do norte: vejo que hoje todos com­pre­endem isto. Aliás, os países eu­ro­peus par­ti­cipam cada vez mais em mis­sões da União Eu­ro­peia e da ONU na re­gião. Quanto a re­sul­tados: faço parte da me­di­ação do pro­cesso de paz do Mali e do co­mité que segue a im­ple­men­tação do acordo as­si­nado na Ar­gélia.

Neste mo­mento, es­tamos num ponto muito com­pli­cado, porque uma das partes aban­donou a mesa das ne­go­ci­a­ções e temos de ajudar a con­vencê-los a re­gressar. A Eu­ropa teve um papel muito im­por­tante em atrair apoio de vá­rios países para ajudar no pro­cesso de paz no Mali. Mas também no pro­cesso de re­gi­o­na­li­zação. O G5 de­cidiu juntar todos os seus meios, re­cursos e ca­pa­ci­dades num pro­jeto comum para ga­rantir a se­gu­rança na re­gião.

Que pro­jeto é esse?

O G5 quer criar um exér­cito comum. Na cú­pula de chefes de Es­tado do G5 em Ba­mako vamos dis­cutir se­gu­rança. Mas a União Eu­ro­peia não dá apenas apoio po­lí­tico. Dá também apoio fi­nan­ceiro e de re­forço das ins­ti­tui­ções. A UE é a prin­cipal or­ga­ni­zação do­a­dora na re­gião. Além da ajuda normal – 3,5 bi­lhões de euros em cinco anos – de­ci­dimos criar um fundo fi­du­ciário de 1,8 bi­lhão para as causas pro­fundas da mi­gração: se­gu­rança, con­trole e gestão de fron­teiras.

Além disso, temos a fer­ra­menta ins­ti­tu­ci­onal: as mis­sões no ter­reno. A UE já deu for­mação a 70% do exér­cito do Mali e há mis­sões civis que fazem for­mação de po­lí­cias, juízes e de todo o apa­relho ju­di­ciário. E também no Níger. O Sahel con­centra todas as crises do mundo: a crise do ter­ro­rismo, a crise da mi­gração, a crise econô­mica, a crise am­bi­ental.

Como é que a es­tra­tégia eu­ro­peia para o Sahel se cruza com a es­tra­tégia do con­tra­ter­ro­rismo?

De certo modo, o do­cu­mento es­tra­té­gico eu­ropeu não in­te­ressa. O que in­te­ressa é o Plano de Ação Re­gi­onal para o Sahel, que tem quatro pri­o­ri­dades: ju­ven­tude, luta contra a ra­di­ca­li­zação – luta e aná­lise, porque nós não sa­bemos muito sobre ra­di­ca­li­zação –, mi­gração e gestão de fron­teiras, e luta contra o trá­fico ilegal. Este úl­timo é muito im­por­tante. A cri­ação do G5 per­mite aos cinco países tra­ba­lharem de forma con­junta no con­trole das suas fron­teiras.

O G5 está a cons­truir um novo con­ceito de se­gu­rança no qual os exér­citos dos cinco países re­la­ci­onam-se entre si e tra­ba­lham juntos contra o ter­ro­rismo. O G5 criou uma es­tru­tura de se­gu­rança re­gi­onal e quer até criar es­colas co­muns de se­gu­rança. A UE vai apoiar a Es­cola de Se­gu­rança do Sahel, criada pelo G5, com o novo fundo fi­du­ciário.

O Sahel não está no nosso radar e até a pa­lavra é des­co­nhe­cida nas elites eu­ro­peias.

O Sahel é a três horas de Roma, de Ali­cante, de qual­quer lugar. O Sahel está mesmo aqui ao lado e com a crise líbia tudo se com­plicou mui­tís­simo. Se não pres­tarmos atenção ao que está a acon­tecer no Sahel, vamos ter um pro­blema muito maior no fu­turo.

O mi­nistro do In­te­rior do Níger disse-me que, há uns anos, o de­serto do Saara era para eles um tampão de se­gu­rança, tudo pa­rava quando che­gava ao Saara; mas hoje, como é im­pos­sível con­trolar as fron­teiras com a crise líbia, o Saara tornou-se um pro­blema real.

Nin­guém con­segue con­trolar o que se passa no de­serto. Todo o tipo de tra­fi­cantes e cri­mi­nosos se es­conde lá. Es­tamos a falar de países com áreas imensas, como o Níger ou o Mali. A França cabe no Norte do Mali. É por isso que a União Eu­ro­peia está a ajudar estes países nas suas es­tru­turas de se­gu­rança.

Por que vir a Lisboa fazer um se­mi­nário com os em­bai­xa­dores eu­ro­peus sobre o Sahel? Os eu­ro­peus estão a su­bes­timar a re­gião?

Não acho que se es­teja a su­bes­timar. Mas as po­pu­la­ções do Sahel estão a au­mentar muito. Em al­guns países vão du­plicar em 18 anos e no Níger a média de fi­lhos é de sete cri­anças por mu­lher – a média! Se não os aju­darmos a ab­sorver a sua pró­pria po­pu­lação, em 20 ou 40 anos o Sahel vai ter um pro­blema ainda mais sério. E o pro­blema do Sahel é o nosso pro­blema. O se­mi­nário de Lisboa é o ter­ceiro do gê­nero. Fi­zemos em Ma­drid e em Berlim. Servem para afinar a es­tra­tégia neste novo con­texto do G5.

Os seus co­legas eu­ro­peus não lhe dizem que estão de­ma­siado ocu­pados para falar sobre o Sahel porque Do­nald Trump está a des­fazer a ordem in­ter­na­ci­onal e o Reino Unido está de saída da União Eu­ro­peia?

Não, isso não me acon­tece. Eu res­pondo a uma ne­ces­si­dade iden­ti­fi­cada pela União Eu­ro­peia e o meu man­dato acaba de ser re­no­vado. Ne­nhum país pode en­frentar so­zinho estes pro­blemas. Se nos jun­tarmos, po­demos pelo menos fazer parte do que acon­tece na re­gião.

Mas disse que a sua pri­meira pre­o­cu­pação é “co­locar o Sahel no topo das agendas in­ter­na­ci­o­nais”…

Sim, mas em nível mais alar­gado, aos países de Leste e ao centro da Eu­ropa. O ob­je­tivo da reu­nião de Lisboa não é chamar a atenção para o Sahel. Isso já existe. O ob­je­tivo é es­tru­turar e ar­ti­cular a res­posta aos pro­blemas e ajudar-me a fazer o meu tra­balho como re­pre­sen­tante eu­ropeu.

O que mais o sur­pre­endeu neste pri­meiro ano de tra­balho no Sahel?

O pro­cesso de paz no Mali e a re­ação dos di­fe­rentes mo­vi­mentos, que lu­tavam uns contra os ou­tros e agora estão sen­tados à mesma mesa. É o nosso maior de­safio. Como sur­presa po­si­tiva, foi a von­tade po­lí­tica dos chefes de Es­tado do G5 para tra­ba­lharem juntos. Eles também já per­ce­beram que so­zi­nhos não re­solvem nada. Trata-se de gestão de fron­teiras, luta contra tra­fi­cantes e contra o crime or­ga­ni­zado, que está a gan­grenar, li­te­ral­mente, o poder do Es­tado.

Esses são pro­blemas de muitos países afri­canos. O que tem o Sahel de par­ti­cular?

O Sahel tem ca­rac­te­rís­ticas muito pró­prias. É o fim de uma parte da África e é o prin­cípio de outra parte da África. E há di­co­to­mias im­por­tantes. Árabes e tu­a­re­gues versus ne­gros, que lutam há sé­culos; Norte versus Sul; Leste versus Oeste; agri­cul­tores versus pas­tores; terras onde há água versus terras secas; centro versus rural. Lutam pela água ou lutam porque um animal comeu a pro­dução e o agri­cultor matou o animal do pastor e a se­guir há uma vin­gança. O Sahel é um lugar onde estão con­cen­tradas as mai­ores crises do mundo.

É um cin­turão de 5700 quilô­me­tros de com­pri­mento, que vai do Atlân­tico ao Mar Ver­melho, e mil quilô­me­tros de lar­gura. A pa­lavra Sahel vem do árabe e sig­ni­fica “fron­teira”. É um lugar onde duas cul­turas em­batem há sé­culos. São um pouco Ma­greb e um pouco África negra. São como o ponto de en­contro de duas placas tectô­nicas. Só isso seria re­le­vante em qual­quer lugar do mundo. Mas quando vemos que esta junção de placas é ali, com uma po­pu­lação a crescer em enorme ve­lo­ci­dade, per­cebe-se porque a qual­quer mo­mento pode ex­plodir.

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