Capitalismo nacionalista, fracasso da globalização?

James Petras – No dis­curso de posse, o pre­si­dente Trump clara e vi­go­ro­sa­mente de­li­neou as po­lí­ticas econô­micas que ado­tará ao longo dos pró­ximos quatro anos. Jor­na­listas, edi­to­ri­a­listas, aca­dê­micos e ‘es­pe­ci­a­listas’ anti-Trump que apa­recem no Fi­nan­cial Times, New York Times, Washington Post e Wall Street Journal in­can­sa­vel­mente dis­torcem e mentem sobre o que Trump disse e também sobre as crí­ticas que fez a po­lí­ticas an­te­ri­ores.

Co­me­ça­remos por dis­cutir se­ri­a­mente a crí­tica que o pre­si­dente Trump fez à eco­nomia po­lí­tica con­tem­po­rânea e, na sequência, ela­bo­ra­remos sobre suas al­ter­na­tivas e fra­quezas.

Pre­si­dente Trump cri­ticou a classe go­ver­nante

A peça cen­tral da crí­tica de Trump contra a elite hoje go­ver­nante tem a ver com o im­pacto ne­ga­tivo da glo­ba­li­zação sobre a pro­dução, o co­mércio e os de­se­qui­lí­brios fis­cais e sobre o mer­cado de tra­balho nos EUA. Trump cita a evi­dência de que o ca­pi­ta­lismo in­dus­trial norte-ame­ri­cano mudou dras­ti­ca­mente o locus dos pró­prios in­ves­ti­mentos, ino­va­ções e lu­cros para ou­tros países, como exemplo dos efeitos ne­ga­tivos da glo­ba­li­zação.

Por duas dé­cadas, muitos po­lí­ticos e es­pe­ci­a­listas em geral choram a perda de em­pregos bem re­mu­ne­rados e de in­dús­trias lo­cais es­tá­veis, como parte de sua re­tó­rica de cam­panha ou em reu­niões pú­blicas e co­mí­cios, mas ne­nhum deles tomou qual­quer ação efe­tiva contra esses as­pectos mais da­nosos da glo­ba­li­zação. Trump de­nun­ciou-os como “só con­versa, e ação zero” (ing. “all talk and no ac­tion”), pro­me­tendo pôr fim aos dis­cursos va­zios e im­ple­mentar grandes mu­danças.

O pre­si­dente Trump tomou como alvos os im­por­ta­dores que trazem pro­dutos ba­ratos de fa­bri­cantes do outro lado do mundo para o mer­cado norte-ame­ri­cano, mi­nando o poder de pro­du­tores e tra­ba­lha­dores norte-ame­ri­canos. Sua es­tra­tégia econô­mica de pri­o­rizar in­dús­trias norte-ame­ri­canas é crí­tica im­plí­cita à con­versão de ca­pital pro­du­tivo em ca­pital fi­nan­ceiro e es­pe­cu­la­tivo que se viu, sob a co­ber­tura e pro­teção dos quatro go­vernos an­te­ri­ores.

O dis­curso de posse, em que atacou as elites por terem aban­do­nado o ‘cin­turão da fer­rugem’ por Wall Street, faz eco à sua pro­messa à classe tra­ba­lha­dora: “Ouçam essas pa­la­vras! Vocês nunca mais serão ig­no­rados”. A classe go­ver­nante, nas pró­prias pa­la­vras do pre­si­dente Trump, não passa de ‘porcos no chi­queiro’ (Fi­nan­cial Times, 1/23/2017, p. 11).

A crí­tica econô­mico-po­lí­tica que Trump traz

O pre­si­dente Trump en­fa­tiza ne­go­ci­a­ções de mer­cado com par­ceiros e ad­ver­sá­rios por todo o pla­neta. Cri­ticou re­pe­tidas vezes a pro­moção de ‘li­vres mer­cados’ e mi­li­ta­rismo agres­sivo co­man­dada pelas mídia-em­presas e por po­lí­ticos pes­so­al­mente in­te­res­sados, que para ele es­ta­riam mi­nando a ca­pa­ci­dade de os EUA ne­go­ci­arem acordos pro­vei­tosos.

A po­lí­tica de imi­gração do pre­si­dente Trump está in­ti­ma­mente li­gada à sua po­lí­tica es­tra­té­gica de Ame­rica First, para o tra­balho. Fluxos mas­sivos de tra­balho imi­grado têm sido usados para com­primir os sa­lá­rios dentro dos EUA, can­celar di­reitos tra­ba­lhistas e em­pregos es­tá­veis. Viu-se esse fenô­meno, pri­meiro, na in­dús­tria de em­ba­lagem de carne, de­pois na in­dús­tria têxtil, de cri­ação de aves e da cons­trução. A pro­posta de Trump é li­mitar a imi­gração, para pos­si­bi­litar que os tra­ba­lha­dores con­sigam fazer di­fe­rença na dis­puta entre tra­balho e ca­pital, e para re­forçar o poder do tra­balho or­ga­ni­zado para ne­go­ciar sa­lá­rios, con­di­ções de tra­balho e be­ne­fí­cios. A crí­tica que Trump cons­truiu contra a imi­gração em massa é ba­seada no fato de que há tra­ba­lha­dores norte-ame­ri­canos qua­li­fi­cados para tra­ba­lhar nos mesmos se­tores, se os sa­lá­rios su­birem e se me­lho­rarem as con­di­ções de tra­balho, de modo que o tra­balho da­queles norte-ame­ri­canos possa prover vida digna e pa­drões es­tá­veis de vida para as suas fa­mí­lias.

A crí­tica po­lí­tica que Trump traz

Trump de­nuncia acordos co­mer­ciais que le­va­riam a dé­fi­cits gi­gantes, e con­clui que os ne­go­ci­a­dores norte-ame­ri­canos até agora são re­ma­tados fra­cassos. Diz que pre­si­dentes an­te­ri­ores dos EUA as­si­naram acordos mul­ti­la­te­rais para ga­rantir ali­anças mi­li­tares e pro­teger bases mi­li­tares, em vez de ne­go­ci­arem acordos co­mer­ciais ori­en­tados para criar em­pregos. Pro­meteu que seu go­verno mu­dará essa equação: quer rasgar ou re­ne­go­ciar todos os acordos econô­micos des­fa­vo­rá­veis, ao mesmo tempo em que reduz os com­pro­missos mi­li­tares e cobra fatia maior dos ali­ados da OTAN, in­du­zidos a pagar, eles mesmos, pelos pró­prios or­ça­mentos da De­fesa. Ime­di­a­ta­mente de­pois da posse, Trump can­celou a Par­ceria Trans-Pa­cí­fico (TPP) e con­vocou uma reu­nião com Ca­nadá e Mé­xico para re­ne­go­ciar o Tra­tado de Livre Co­mércio da Amé­rica do Norte (ing. NAFTA).

A agenda de Trump mos­trou planos para pro­jetos de in­fra­es­tru­tura no valor de cen­tenas de bi­lhões de dó­lares, in­cluindo os con­tro­versos ole­o­dutos e ga­so­dutos do Ca­nadá ao Golfo nos EUA. É claro que esses ga­so­dutos e ole­o­dutos vi­olam tra­tados exis­tentes com po­pu­la­ções au­tóc­tones e ame­açam o equi­lí­brio eco­ló­gico. Mas ao pri­o­rizar o uso de ma­te­rial de cons­trução fa­bri­cado nos EUA e ao in­sistir em que seja con­tra­tada mão de obra norte-ame­ri­cana, essas po­lí­ticas con­tro­versas for­marão uma base para de­sen­volver em­pregos norte-ame­ri­canos mais bem re­mu­ne­rados.

Essa ên­fase em in­ves­ti­mentos e em­pregos nos EUA é rup­tura total com o go­verno an­te­rior, quando o pre­si­dente Obama só pensou em fazer guerras e mais guerras no Ori­ente Médio, e em au­mentar o dé­ficit pú­blico e o dé­ficit co­mer­cial.

O dis­curso de posse fez pro­messa muito clara: “A car­ni­fi­cina norte-ame­ri­cana ter­mina aqui e ter­mina agora!” (ing. “The Ame­rican car­nage stops right now and stops right here!”). Essa pro­messa res­soou pro­fun­da­mente com um vasto setor da classe tra­ba­lha­dora e foi feita di­ante de um pú­blico cons­ti­tuído dos prin­ci­pais ar­qui­tetos de quatro dé­cadas de glo­ba­li­zação que só fez des­truir em­pregos.

“Car­ni­fi­cina” apa­receu na­quela frase com duplo sig­ni­fi­cado: o mas­sacre in­terno, que re­sultou de Obama e ou­tros go­vernos terem des­truído todos os em­pregos dos ci­da­dãos norte-ame­ri­canos e le­vado à ruína e ban­car­rota in­con­tá­veis co­mu­ni­dades ru­rais, pe­quenas ci­dades e co­mu­ni­dades ur­banas. Essa car­ni­fi­cina do­més­tica foi a outra face da mesma moeda das po­lí­ticas de Obama e go­vernos que o an­te­ce­deram, de levar guerras – e dis­se­minar a car­ni­fi­cina – por três con­ti­nentes.

Os úl­timos 15 anos de li­de­ranças po­lí­ticas nos EUA foram anos de dis­se­minar a car­ni­fi­cina, também, de uma ge­ração de norte-ame­ri­canos, em­pur­rados para um surto epi­dê­mico de de­pen­dência quí­mica (hoje, re­la­ci­o­nada prin­ci­pal­mente à pres­crição não con­tro­lada de opiá­ceos sin­té­ticos), que já matou cen­tenas de mi­lhares de norte-ame­ri­canos, so­bre­tudo jo­vens, e des­truiu a vida de mi­lhões.

Trump pro­meteu que fi­nal­mente se em­pe­nharia a pôr fim nessa “car­ni­fi­cina”. In­fe­liz­mente ainda não pôs rédea na cha­mada ‘Big Pharma’ e na co­mu­ni­dade do pes­soal mé­dico res­pon­sável por dis­se­minar a de­pen­dência quí­mica até os cantos mais pro­fundos dos de­vas­tados EUA ru­rais.

Trump cri­ticou po­lí­ticos eleitos de go­vernos que o pre­ce­deram por au­to­ri­zarem gi­gan­tescos sub­sí­dios mi­li­tares a “ali­ados”. Mas fez questão de deixar claro que essa crí­tica não in­cluía po­lí­ticas de so­li­da­ri­e­dade mi­litar dos EUA e não des­qua­li­fi­caria sua pro­messa de ‘re­forçar ve­lhas ali­anças’ (OTAN).

Ver­dades e men­tiras: jor­na­listas-lixo e mi­li­ta­ristas de sofá

Dentre os mais re­pug­nantes exem­plos da his­teria dos jor­na­listas e ‘es­pe­ci­a­listas’ de TV contra a Nova Eco­nomia de Trump, está a série sis­te­má­tica, en­ve­ne­nada, de men­tiras cons­truídas para ocultar a ter­rível re­a­li­dade na­ci­onal nos EUA, que Trump pro­meteu atacar. Dis­cu­tirei isso, com­pa­rando os re­latos de dois ‘jor­na­listas-lixo’ (JL) e ofe­re­cendo versão mais acu­rada da si­tu­ação.

Res­pei­tá­veis JLs do Fi­nan­cial Times dizem que Trump quer ‘des­truir o co­mércio mun­dial’. De fato, Trump expôs re­pe­tidas vezes sua in­tenção de am­pliar o co­mércio in­ter­na­ci­onal. O pro­jeto de Trump é au­mentar o co­mércio mun­dial dos EUA de dentro para fora, não de fora para dentro. Quer re­ne­go­ciar os termos de acordos mul­ti­la­te­rais e bi­la­te­rais, para ga­rantir maior re­ci­pro­ci­dade com par­ceiros co­mer­ciais. No go­verno Obama, os EUA foram mais agres­sivos na im­po­sição de ta­rifas co­mer­ciais que qual­quer outro país da Or­ga­ni­zação de Co­mércio e De­sen­vol­vi­mento Econô­mico (OCDE).

Jor­na­listas-lixo ro­tulam Trump como ‘pro­te­ci­o­nista’, con­fun­dindo suas po­lí­ticas para rein­dus­tri­a­lizar a eco­nomia, com au­tar­quismo. Trump pro­mo­verá ex­por­ta­ções e im­por­ta­ções, ao mesmo tempo em que am­pliará o papel dos EUA como pro­dutor e ex­por­tador. Os EUA serão mais se­le­tivos no que im­portam. Trump fa­vo­re­cerá o cres­ci­mento de ma­nu­fa­turas para ex­por­tação e au­men­tará as im­por­ta­ções de ma­téria prima e tec­no­lo­gias avan­çadas, ao tempo em que reduz a im­por­tação de au­to­mó­veis, aço e pro­dutos de con­sumo do­més­tico.

A opo­sição de Trump à ‘glo­ba­li­zação’ tem sido ata­cada pelos jor­na­listas-lixo do Washington Post como grave ameaça contra ‘a ordem econô­mica do pós-2ª Guerra Mun­dial’. De fato, vastas mu­danças já tor­naram ob­so­leta aquela velha ordem, e es­forços para mantê-la viva têm le­vado a crises, a guerras e a mais de­sas­tres e fa­lên­cias. Trump re­co­nheceu o es­tado de ob­so­les­cência da velha ordem econô­mica e de­cidiu que é ne­ces­sário mudar.

A ordem mun­dial ob­so­leta e a du­vi­dosa nova eco­nomia

Ao fim da 2ª Guerra Mun­dial, a maior parte da Eu­ropa Oci­dental e o Japão re­cor­reram a po­lí­ticas mo­ne­tá­rias e in­dus­triais ‘pro­te­ci­o­nistas’ al­ta­mente res­tri­tivas para re­cons­truir as res­pec­tivas eco­no­mias. Só de­pois de um pe­ríodo de re­cu­pe­ração pro­lon­gado a Ale­manha e o Japão cui­da­dosa e se­le­ti­va­mente li­be­ra­li­zaram as po­lí­ticas econô­micas.

Em dé­cadas re­centes, a Rússia foi dras­ti­ca­mente trans­for­mada, de uma po­de­rosa eco­nomia co­le­ti­vista para uma oli­gar­quia ca­pi­ta­lista mo­vida a gângs­teres e vas­salos de gângs­teres e, mais re­cen­te­mente, para uma eco­nomia re­cons­ti­tuída mista, com Es­tado cen­tral forte. A China foi trans­for­mada, de eco­nomia co­le­ti­vista, iso­lada do co­mércio mun­dial, para a se­gunda mais po­de­rosa eco­nomia do mundo, des­lo­cando os EUA do posto de maior par­ceiro co­mer­cial da Ásia e da Amé­rica La­tina.

Já tendo con­tro­lado 50% do co­mércio mun­dial, os EUA hoje não chegam a 20%. Esse de­clínio ex­plica-se em parte pelo des­man­te­la­mento da eco­nomia in­dus­trial norte-ame­ri­cana, quando grandes in­dus­triais mu­daram suas plantas e fá­bricas para ou­tros países.

Não obs­tante a trans­for­mação da ordem mun­dial, pre­si­dentes re­centes dos EUA não con­se­guiram ver a im­pe­riosa ne­ces­si­dade de re­or­ga­nizar a eco­nomia po­lí­tica do país. Em vez de re­co­nhecer, adaptar e aceitar al­ter­nância no poder e re­la­ções de mer­cado, só fi­zeram tentar in­ten­si­ficar os ve­lhos pa­drões de do­mi­nação, cada vez com mais guerras, mais in­ter­ven­ções mi­li­tares e san­grentas ‘trocas de re­gime’ – com o que só fi­zeram de­vastar mer­cados pos­sí­veis, em vez de abrir mer­cados para bens norte-ame­ri­canos.

Em vez de re­co­nhecer o imenso poder econô­mico da China e buscar re­ne­go­ciar acordos co­mer­ciais e de co­o­pe­ração, os norte-ame­ri­canos es­tu­pi­da­mente ex­cluíram a China dos pactos co­mer­ciais re­gi­o­nais e in­ter­na­ci­o­nais, a ponto de se porem a abusar cru­el­mente de par­ceiros co­mer­ciais asiá­ticos me­nores, e in­ven­tarem uma po­lí­tica de cerco mi­litar e pro­vo­cação nos Mares do Sul da China. Se é ver­dade que Trump, sim, con­se­guiu ver essas mu­danças para pior e a ne­ces­si­dade de re­ne­go­ciar laços econô­micos, mem­bros do ga­bi­nete por ele es­co­lhido ainda in­sistem em manter e am­pliar as po­lí­ticas mi­li­ta­ristas de Obama, de tres­lou­cada con­fron­tação.

Sob os go­vernos an­te­ri­ores, Washington só fez ig­norar a res­sur­reição, re­cu­pe­ração e cres­ci­mento da Rússia como po­tência re­gi­onal e mun­dial. Quando a re­a­li­dade fi­nal­mente se impôs, go­vernos an­te­ri­ores dos EUA au­men­taram a in­ter­fe­rência abu­siva nos países que foram ali­ados da União So­vié­tica, ins­ta­laram bases e pu­seram-se a fazer exer­cí­cios mi­li­tares junto à fron­teira da Rússia. Em vez de apro­fundar o co­mércio e os in­ves­ti­mentos com a Rússia, Washington gastou bi­lhões em san­ções e gastos mi­li­tares – es­pe­ci­al­mente para fo­mentar o san­gui­nário re­gime put­chista na Ucrânia.

As po­lí­ticas de Obama, de pro­mover a to­mada vi­o­lenta do poder na Ucrânia, Síria e Líbia, foram mo­ti­vadas pela ânsia de der­rubar go­vernos sim­pá­ticos à Rússia – mas de­vas­taram aqueles mesmos países e, afinal, só fi­zeram for­ta­lecer a de­cisão dos russos de con­so­lidar e de­fender as pró­prias fron­teiras e de cons­truir novas ali­anças es­tra­té­gicas.

No início de sua cam­panha, Trump re­co­nheceu as novas re­a­li­dades mun­diais e propôs mudar a subs­tância, os sím­bolos, a re­tó­rica e as re­la­ções com ad­ver­sá­rios e ali­ados – mo­vendo o país na di­reção de uma Nova Eco­nomia.

Pri­meiro e, so­bre­tudo, Trump con­si­derou as guerras de­sas­trosas no Ori­ente Médio e re­co­nheceu os li­mites do poder mi­litar dos EUA: os EUA não podem en­gajar-se em vá­rias guerras in­fin­dá­veis de con­quista e ocu­pação no Ori­ente Médio, norte da África e Ásia, sem pagar al­tís­simo custo do­més­tico.

Se­gundo, Trump viu que a Rússia ab­so­lu­ta­mente não é ameaça mi­litar es­tra­té­gica aos EUA. Além do mais, o go­verno russo sob co­mando de Vla­dimir Putin es­tava que­rendo co­o­perar com os EUA para der­rotar o ini­migo de todos – o Es­tado Is­lâ­mico (EI) e suas redes ter­ro­ristas. A Rússia es­tava também in­te­res­sada em re­a­brir seus mer­cados a in­ves­ti­dores norte-ame­ri­canos, os quais também es­tavam an­si­osos para voltar para lá, de­pois de anos de san­ções im­postas por Obama-Clinton-Kerry. Trump, o re­a­lista, ofe­rece acabar com as san­ções e res­taurar re­la­ções fa­vo­rá­veis ao mer­cado.

Ter­ceiro, é claro para Trump que as guerras dos EUA no Ori­ente Médio im­plicam gastos mons­tru­osos e be­ne­fício mí­nimo para a eco­nomia dos EUA. O que Trump quer é au­mentar re­la­ções de mer­cado com as po­tên­cias econô­micas e mi­li­tares re­gi­o­nais, como Tur­quia, Is­rael e as mo­nar­quias do Golfo. Trump não tem qual­quer in­te­resse na Pa­les­tina, no Iêmen, Síria ou nos curdos – que não ofe­recem nem in­ves­ti­mento nem opor­tu­ni­dades de ne­gó­cios. Ig­nora o enorme po­ten­cial re­gi­onal econô­mico e mi­litar do Irã… Mas propôs re­ne­go­ciar o re­cente acordo de seis países com o Irã, porque tem in­te­resse em me­lhorar a parte dos EUA na bar­ganha.

Sua cam­panha re­tó­rica muito hostil contra Teerã pode ter o ob­je­tivo de acalmar Is­rael e a po­de­rosa Quinta Co­luna de “Is­rael em pri­meiro lugar”, que é ati­vís­sima nos EUA. Com cer­teza, surgiu aí um con­flito com os dis­cursos de “Amé­rica em pri­meiro lugar”. Temos de es­perar para ver se Do­nald Trump man­terá um ‘show’ de sub­missão ao pro­jeto si­o­nista, ao mesmo tempo em que avança para in­cluir o Irã como parte de sua agenda para o mer­cado re­gi­onal.

Os jor­na­listas-lixo dizem que Trump adotou po­sição be­li­cosa contra a China e ameaça lançar uma ‘agenda pro­te­ci­o­nista’, que, em úl­tima ins­tância, em­pur­rará os países trans­pa­cí­ficos para mais perto de Pe­quim. É o con­trário. Trump tem se mos­trado em­pe­nhado em re­ne­go­ciar e au­mentar o co­mércio via acordos bi­la­te­rais.

O mais pro­vável é que Trump man­tenha, mas sem ex­pandir, o cerco mi­litar em torno das fron­teiras ma­rí­timas da China, que ame­açam rotas ma­rí­timas vi­tais para os EUA. Mesmo assim, e di­fe­ren­te­mente de Obama, Trump re­ne­go­ciará re­la­ções econô­micas e co­mer­ciais com Pe­quim – vendo a China como grande po­tência econô­mica, não como país em de­sen­vol­vi­mento de­di­cado a pro­teger sua ‘in­dús­tria nas­cente’. O re­a­lismo de Trump re­flete a nova ordem econô­mica: a China é po­tência econô­mica mun­dial ma­dura, al­ta­mente com­pe­ti­tiva, que já ul­tra­passou os EUA em vá­rios fronts da con­cor­rência, e sem abrir mão dos sub­sí­dios e in­cen­tivos do pró­prio Es­tado, her­dados da fase econô­mica an­te­rior. Isso levou a de­se­qui­lí­brios sig­ni­fi­ca­tivos.

Trump, o re­a­lista, re­co­nhece que a China ofe­rece grandes opor­tu­ni­dades para co­mércio e in­ves­ti­mento, se os EUA pu­derem as­se­gurar acordos re­ci­pro­ca­mente in­te­res­santes, que levem a um equi­lí­brio mais fa­vo­rável da ba­lança co­mer­cial.

Trump não quer lançar uma ‘guerra co­mer­cial’ contra a China, mas ele tem de res­taurar os EUA como grande nação ‘ex­por­ta­dora’, como con­dição in­dis­pen­sável para poder im­ple­mentar sua agenda econô­mica do­més­tica. As ne­go­ci­a­ções com os chi­neses serão muito di­fí­ceis, porque a elite im­por­ta­dora norte-ame­ri­cana opõe-se à agenda de Trump e está aliada à classe go­ver­nante em Pe­quim, que é for­mi­da­vel­mente ori­en­tada para ex­portar.

Mas, prin­ci­pal­mente, porque a elite do ban­king de Wall Street está jo­gando com Pe­quim, para en­trar nos mer­cados fi­nan­ceiros chi­neses, e o setor fi­nan­ceiro é aliado ins­tável e pouco en­tu­si­as­mado das po­lí­ticas pró-in­dús­tria, de Trump.

Con­clusão

Trump não é ‘pro­te­ci­o­nista’, nem se opõe ao ‘livre co­mércio’. Essas ‘acu­sa­ções’ que lhe fazem os jor­na­listas-lixo não têm qual­quer base na re­a­li­dade. Trump não se opõe às po­lí­ticas de im­pe­ri­a­lismo econô­mico dos EUA no ex­te­rior. Mas Trump é homem re­a­lista de mer­cado, que vê que a con­quista mi­litar é ca­rís­sima e, no con­texto do mundo con­tem­po­râneo, pro­po­sição econô­mica que já se com­provou fra­cas­sada para os EUA. Ele vê que os EUA têm de afastar-se de uma eco­nomia pre­do­mi­nan­te­mente fi­nan­ceira e de im­por­tação, para se apro­ximar de ser eco­nomia de ma­nu­fa­tura e ex­por­tação.

Trump vê a Rússia como po­ten­cial par­ceira econô­mica e aliada mi­litar para pôr fim às guerras na Síria, no Iraque, no Afe­ga­nistão e na Ucrânia e, es­pe­ci­al­mente, para der­rotar a ameaça ter­ro­rista do EI. E vê a China como po­de­rosa con­cor­rente econô­mica, que até hoje se tem be­ne­fi­ciado dos an­ti­quados pri­vi­lé­gios co­mer­ciais, e quer re­ne­go­ciar pactos co­mer­ciais ali­nhados com o atual real jogo do poder econô­mico.

Trump é um ca­pi­ta­lista-na­ci­o­na­lista, im­pe­ri­a­lista de mer­cado e re­a­lista po­lí­tico, que está dis­posto a atro­pelar di­reitos das mu­lheres, leis de mu­dança cli­má­tica, tra­tados com povos in­dí­genas e di­reitos de imi­grantes. O ga­bi­nete que cons­truiu, e seus co­legas Re­pu­bli­canos no Con­gresso, são mo­ti­vados por uma ide­o­logia mi­litar mais pró­xima da dou­trina Obama-Clinton, que da nova agenda de “Amé­rica em pri­meiro lugar” de Trump. O ga­bi­nete de Trump está cer­cado com im­pe­ri­a­listas mi­li­tares, ex­pan­si­o­nistas ter­ri­to­riais e doidos fa­ná­ticos.

Ainda é muito cedo para saber quem ven­cerá no curto ou no longo prazo. O que é claro é que li­be­rais, fãs do Par­tido De­mo­crata e ad­vo­gados das gan­gues de rua e ca­misas ne­gras do Pe­queno Mus­so­lini cer­rarão fi­leira com os im­pe­ri­a­listas e en­con­trarão muitos ali­ados dentro e em torno do re­gime Trump.

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