2019: o silêncio que precede a explosão. “Estamos num barril de pólvora”

Gabriel Brito – En­cerra-se um ano que fi­cará na me­mória como um caos per­ma­nente, sob o signo de uma fi­gura cujo obs­cu­ran­tismo ja­mais po­derá ser es­que­cido. De­cla­ra­ções e atos aber­rantes do pre­si­dente e sua equipe, quando não crimes e ata­ques às pró­prias fun­ções de Es­tado, foram pão de cada dia. Entre a per­ple­xi­dade geral e um imo­bi­lismo também cau­sado por uma es­querda der­ro­tada no tempo e na his­tória, o ab­surdo se es­ta­bi­lizou e por vezes teve ares de nor­ma­li­dade. No en­tanto, a si­tu­ação econô­mica e os le­vantes em países vi­zi­nhos su­gerem que a pas­ma­ceira não será eterna. É sobre este quadro que o so­ció­logo Ruy Braga falou ao Cor­reio da Ci­da­dania, em nossa úl­tima en­tre­vista do ano.

“A equação do con­ser­va­do­rismo é: o apa­rato re­pressor re­a­ci­o­nário, o que in­clui o Ju­di­ciário, mar­cado pelo avanço de certo mi­le­na­rismo ju­rí­dico, como se este poder fosse salvar o país; as classes mé­dias que aderem o pro­jeto ul­tra­li­beral; o em­pre­sa­riado que adere à agenda de Paulo Guedes; e o setor po­pular li­gado às igrejas pen­te­cos­tais e ne­o­pen­te­cos­tais, ade­rente ao go­verno por conta da agenda de cos­tumes, o que se re­flete na po­pu­la­ri­dade de Da­mares”, afirmou Braga, ao ex­plicar a re­la­tiva es­ta­bi­li­dade do go­verno.

Ruy Braga acres­centa que tal es­ta­bi­li­dade também se apoia na con­jun­tura do es­pectro oposto. “Temos uma enorme frag­men­tação da pauta de es­querda, mas sem ar­ti­cu­lação entre todas elas, o que mostra a lu­lo­de­pen­dência da es­querda bra­si­leira, e também o es­go­ta­mento desta forma de fazer po­lí­tica, uma fór­mula muito con­cen­trada na fi­gura de um cau­dilho, uma li­de­rança”.

Es­tu­dioso das ques­tões do mundo do tra­balho, a res­peito do qual pu­blicou e editou di­versos li­vros, Ruy Braga passou o ano de 2019 ori­en­tando o es­tudo que cul­minou no livro Tra­balho e So­fri­mento Psí­quico – his­tó­rias que contam essa His­tória (pode ser con­se­guido aqui), es­crito por Tathiana Cap­pel­lano e Bruno Car­ra­menha a partir de mais de 800 en­tre­vistas com tra­ba­lha­dores(as) bra­si­leiro(as). Uma base que o faz cons­tatar que o múl­tiplo pro­cesso de mer­can­ti­li­zação da vida, como de­fine, ainda será con­tras­tado por va­ri­adas e po­tentes re­voltas so­ciais.

“Pa­rece óbvio que a res­posta a tais di­lemas não será dada pela es­querda ins­ti­tu­ci­onal. O que con­sigo ima­ginar para breve é algo muito pa­re­cido com o que se vê na Amé­rica La­tina: um con­junto grande de in­sur­gên­cias po­pu­lares ur­banas, com fei­ções he­te­ro­gê­neas, com es­cala de massas, sem li­de­ranças cla­ra­mente iden­ti­fi­cadas e com uma agenda de en­fren­ta­mento da mer­can­ti­li­zação ra­dical de todos os se­tores da vida so­cial, en­se­jada pelo ul­tra­ne­o­li­be­ra­lismo co­man­dado por Paulo Guedes”.

A en­tre­vista com­pleta com Ruy Braga pode ser lida a se­guir.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como sin­te­tizar o ano de 2019 no Brasil, com o apa­re­ci­mento de um go­verno de ul­tra­di­reita que, apesar de des­pertar enorme re­púdio, con­segue avançar re­formas e co­locar suas pautas, muitas delas mo­ra­listas, no centro da agenda po­lí­tica?

Ruy Braga: O pri­meiro ano deste go­verno fica mar­cado pelo signo da ins­ta­bi­li­dade. Aquilo que a so­ci­e­dade herda do pe­ríodo de crise de 2015 pra cá, uma com­bi­nação de crise econô­mica com po­lí­tica, re­sul­tante em pro­funda crise so­cial, não se es­ta­bi­lizou. Bol­so­naro é ex­pressão do pro­cesso de re­pro­dução de uma crise que pode estar menos ex­plí­cita, mas está mar­ca­da­mente pre­sente na vida das pes­soas, haja vista a questão do em­prego.

De no­vembro de 2017 até os úl­timos dados do em­prego a taxa geral de de­sem­prego está es­tável, no en­tanto, per­ce­bemos cla­ra­mente uma de­te­ri­o­ração do mer­cado de tra­balho bra­si­leiro. Mais em­pregos in­for­mais no lugar dos for­mais, um mo­vi­mento de in­se­gu­rança para as fa­mí­lias sub­me­tidas. Isso sig­ni­fica que mesmo com este 1% de cres­ci­mento ao ano há uma de­te­ri­o­ração das con­di­ções ge­rais de con­tra­tação, acom­pa­nhada do au­mento da con­cen­tração de renda. O en­di­vi­da­mento das fa­mí­lias é outra con­sequência, ge­ren­ciado por in­ter­médio da li­be­ração do FGTS.

Do ponto de vista das con­di­ções ge­rais da po­lí­tica, o fato de ser um go­verno novo per­mitiu su­perar a si­tu­ação de aguda crise po­lí­tica do go­verno Temer, de cor­rupção, es­cân­dalos e bai­xís­sima po­pu­la­ri­dade. Como se ex­plica? A de­can­tação da ex­trema di­reita pela so­ci­e­dade bra­si­leira, que en­con­trou em Bol­so­naro um meio de ex­pressar seus res­sen­ti­mentos, neuras e taras. Isso em al­guma me­dida sus­tenta seus 30% de po­pu­la­ri­dade. Já caiu muito após a eleição, mas se es­ta­bi­lizou nesses 30%, um nú­mero que não é de total adesão, não é tão firme. O nú­cleo bol­so­na­rista con­sis­tente é de 12% a 15%. Mas tem 30% da so­ci­e­dade dis­posta a apoiar tal go­verno, o que é muita gente.

Isso passa pela crise econô­mica, pela iden­ti­fi­cação do PT como cau­sador da po­lí­tica econô­mica, através da cor­rupção e também por conta do se­gundo man­dato de Dilma, mar­cado por po­lí­ticas que não deram certo e apro­fun­daram a re­cessão. Mas tem outro com­po­nente: a apro­xi­mação de parte da po­pu­lação da agenda con­ser­va­dora, ex­pressa na apro­xi­mação pen­te­costal/evan­gé­lica. Existe um setor da so­ci­e­dade que ga­rantiu sua eleição – o voto evan­gé­lico, ge­ne­ri­ca­mente fa­lando – que fez a di­fe­rença entre Bol­so­naro e Haddad.

É um fato im­por­tante, que pre­cisa ser es­tu­dado: o des­lo­ca­mento do setor pen­te­costal/ne­o­pen­te­costal para a ex­trema di­reita. Isso já vinha sendo in­di­cado em ou­tras pes­quisas, mas agora ganha vo­lume mais sur­pre­en­dente.

A des­peito da ins­ta­bi­li­dade e de­pressão econô­mica, que não se su­perou, houve uma re­a­co­mo­dação do jogo de forças em torno do pre­si­dente e seus mi­nis­tros mais po­pu­lares, como Moro, o que ga­rantiu fô­lego ao pri­meiro ano de go­verno.

Cor­reio da Ci­da­dania: E no es­pectro oposto é de se supor al­guns fa­tores que também ex­pli­quem este fô­lego.

Ruy Braga: Do ponto de vista dos mo­vi­mentos so­ciais e par­tidos, per­cebe-se cla­ra­mente que todo o pro­cesso que ter­minou com o pro­cesso de im­pe­a­ch­ment de Dilma – de certa forma desde 2013, quando um nível de ati­vi­dade po­lí­tica muito in­tenso se viu por todo o país, até 2017, ápice da ins­ta­bi­li­dade de Temer – foi du­ra­mente gol­peado em 2018 com a prisão de Lula, a im­pos­si­bi­li­dade de sua can­di­da­tura, se­guida da vi­tória de Bol­so­naro e o es­tan­ca­mento de um pro­jeto pro­gres­sista.

O ano de 2019 fica mar­cado por essas con­di­ções, in­cluindo a in­se­gu­rança econô­mica, e ter­mina sob a marca da des­mo­bi­li­zação so­cial, mo­ti­vada pelo con­texto de der­rota de 2018 e es­go­ta­mento das forças po­lí­ticas e também so­ciais, o que vinha desde 2013 – forças sin­di­cais, po­pu­lares ur­banas, es­tu­dantis, fe­mi­nistas, LGBTs, negro(as). Estas foram du­ra­mente atin­gidas pela re­gressão de 2018.

A questão é: como ex­plicar essa des­mo­bi­li­zação? A meu ver, deve-se à in­ca­pa­ci­dade que a es­querda tem de cons­truir um pro­jeto al­ter­na­tivo ao lu­lismo. Quando se de­po­sita toda sua energia em ga­nhar uma eleição, tida como úl­timo re­curso para conter os avanços da di­reita, e o can­di­dato mais forte é preso e ex­cluído da com­pe­tição, re­vela-se com muita cla­reza a ine­xis­tência de pro­jetos al­ter­na­tivos ao lu­lismo.

Temos uma enorme frag­men­tação da pauta de es­querda, mas sem ar­ti­cu­lação entre todas elas, o que mostra a lu­lo­de­pen­dência da es­querda bra­si­leira, e também o es­go­ta­mento desta forma de fazer po­lí­tica, uma fór­mula muito con­cen­trada na fi­gura de um cau­dilho, uma li­de­rança.

Por­tanto, vi­vemos ta­manha des­mo­bi­li­zação porque, de um lado, houve uma der­rota po­lí­tica e, de outro, a in­com­pe­tência em criar um pro­jeto al­ter­na­tivo ao que foi der­ro­tado em 2018. Por isso nada se traduz em acir­ra­mento da luta de classes nas ruas, lo­cais de tra­balho e fi­camos sob o clima de pas­ma­ceira ge­ne­ra­li­zada. Li­mita-se, assim, a pos­si­bi­li­dade de fazer po­lí­tica apenas no âm­bito par­la­mentar. Temos bas­tante ati­vismo par­ti­dário nos par­la­mentos, mas isso não tem vin­cu­lação di­reta com mo­bi­li­za­ções de rua.

Cor­reio da Ci­da­dania: Ainda sobre a ex­trema di­reita, como com­pre­ender tal fenô­meno ao sa­bermos que o dis­curso mo­ra­lista não se sus­tenta na re­a­li­dade, dado que os vín­culos de Bol­so­naro e seu cír­culo com a cor­rupção e até a ma­fi­a­li­zação da vida pú­blica são de con­si­de­rável co­nhe­ci­mento e não exa­ta­mente re­fu­tados. Como com­pre­ender es­ta­bi­li­zação mesmo di­ante da fra­gi­li­dade da sua mo­ra­li­dade?

Ruy Braga: É o con­ser­va­do­rismo que pre­ci­samos ra­di­o­grafar. Quando ob­ser­vamos a base so­cial deste go­verno per­ce­bemos com al­guma cla­reza que há uma ala li­gada ao exér­cito, his­to­ri­ca­mente con­ser­vador e re­a­ci­o­nário, que em muitos mo­mentos da his­tória se co­locou na linha de frente da de­fesa de in­te­resses li­gados à bur­guesia e às classes mé­dias altas. Não po­demos negar isso. Mesmo com uma Re­forma da Pre­vi­dência que atingiu a parte baixa dessa base, o que fus­tigou um pouco o go­verno, é no­tório que o apa­rato re­pressor bra­si­leiro – so­mando as po­lí­cias – apoia ma­jo­ri­ta­ri­a­mente o go­verno.

Temos um apa­rato re­pressor cen­tra­li­zado no Es­tado, com dis­ci­plina rí­gida, co­mando, or­ga­ni­zação in­terna, que banca a es­ta­bi­li­dade deste go­verno. É um pri­meiro ele­mento, ao lado do qual de­vemos con­si­derar também a Po­lícia Fe­deral, que não tem pouca gente e abrange parte subs­tan­tiva do Es­tado bra­si­leiro.

A isso se soma a adesão de se­tores mé­dios tra­di­ci­o­nais a uma agenda con­ser­va­dora re­a­ci­o­nária, prin­ci­pal­mente do ponto de vista econô­mico, onde o ul­tra­ne­o­li­be­ra­lismo au­to­ri­tário de Paulo Guedes tem al­guma po­pu­la­ri­dade. São se­tores que ga­nharam muito no pe­ríodo lu­lista, ex­pe­ri­men­taram a crise e se di­vor­ci­aram de­fi­ni­ti­va­mente de qual­quer agenda pro­gres­sista, o que se via em boa me­dida desde a re­de­mo­cra­ti­zação.

Trata-se de par­cela da po­pu­lação que tem di­nheiro apli­cado no mer­cado fi­nan­ceiro e se di­vorcia, neste caso, dos go­vernos pe­tistas mais pelos seus mé­ritos que de­feitos, isto é, au­mento dos em­pregos em car­teira, for­ma­li­zação de tra­ba­lha­dores do­més­ticos, ten­ta­tiva de des­con­cen­trar a renda por meio do tra­balho… Esses se­tores aderem a uma agenda au­to­ri­tária do ponto de vista econô­mico e isso tem efeito, por ser um setor in­flu­ente, que forma opi­nião, tem acessão aos meios de co­mu­ni­cação, certo nível de es­tudo. Por isso o go­verno é bem ava­liado entre aqueles que têm nível su­pe­rior.

O ter­ceiro ele­mento passa pela forte adesão do em­pre­sa­riado bra­si­leiro a essa agenda ul­tra­ne­o­li­beral, o que con­so­lida sua li­de­rança sobre se­tores mé­dios e tra­di­ci­o­nais do em­pre­sa­riado, a exemplo da FIESP.

E, fi­nal­mente, o grande ele­mento ino­vador é o apoio po­pular a uma agenda con­ser­va­dora em cos­tumes, o que não é tanta no­vi­dade no Brasil. No en­tanto, mostra certa tensão no âm­bito das classes su­bal­ternas, entre o prag­ma­tismo li­gado à re­pro­dução da vida co­ti­diana – sa­lário, renda, em­prego, se­gu­rança – e uma agenda con­ser­va­dora do ponto de vista dos cos­tumes. No go­verno Lula, en­quanto houve certa pros­pe­ri­dade entre se­tores po­pu­lares, tal tensão foi mi­ti­gada, adiada, de modo que essa agenda teve de es­perar um pouco di­ante da me­lhoria das con­di­ções de vida da­quele mo­mento.

Assim, a mai­oria dos se­tores evan­gé­licos vo­tava em Lula e Dilma. No en­tanto, no con­texto de crise esses se­tores, que já eram con­ser­va­dores, mas fa­ziam con­ces­sões di­ante do prag­ma­tismo po­lí­tico, se afas­taram com­ple­ta­mente.

A equação do con­ser­va­do­rismo é: o apa­rato re­pressor re­a­ci­o­nário, o que in­clui o Ju­di­ciário, mar­cado pelo avanço de certo mi­le­na­rismo ju­rí­dico, como se este poder fosse salvar o país; as classes mé­dias que aderem o pro­jeto ul­tra­li­beral; o em­pre­sa­riado que adere à agenda de Paulo Guedes; e o setor po­pular li­gado às igrejas pen­te­cos­tais e ne­o­pen­te­cos­tais, ade­rente ao go­verno por conta da agenda de cos­tumes, o que se re­flete na po­pu­la­ri­dade de Da­mares.

Cor­reio da Ci­da­dania: Quanto ao campo de es­querda e pro­gres­sista, há aqueles que apontam um fim de ciclo que de­mo­rará a ser subs­ti­tuído por outro, até pela he­ge­monia que se mantém do lu­lismo, mas há aqueles que apontam as re­voltas po­pu­lares em países vi­zi­nhos, fora do con­trole ins­ti­tu­ci­onal – in­clu­sive das forças de es­querda e pro­gres­sistas ins­ti­tu­ci­o­nais. Como ima­ginar o fu­turo pró­ximo, ao con­si­derar que a queda nas con­di­ções de vida das mai­o­rias é inequí­voca?

Ruy Braga: A si­tu­ação bra­si­leira é mar­cada, sem dú­vida, pela ins­ta­bi­li­dade. Não es­tamos num mo­mento de es­ta­bi­li­zação das re­la­ções so­ciais de pro­dução ca­pi­ta­lista, muito menos no campo po­lí­tico. O solo é muito mo­ve­diço. Quando me re­firo à in­ca­pa­ci­dade das es­querdas se re­ar­ti­cu­larem, me re­firo aos se­tores he­gemô­nicos desta es­querda, no sen­tido de criar um pro­jeto al­ter­na­tivo ao lu­lismo.

O se­gundo ponto é que me pa­rece óbvio que a res­posta a tais di­lemas não será dada pela es­querda ins­ti­tu­ci­onal. O que con­sigo ima­ginar para breve é algo muito pa­re­cido com o que se vê na Amé­rica La­tina: um con­junto grande de in­sur­gên­cias po­pu­lares ur­banas, com fei­ções he­te­ro­gê­neas, com es­cala de massas, sem li­de­ranças cla­ra­mente iden­ti­fi­cadas e com uma agenda de en­fren­ta­mento da mer­can­ti­li­zação ra­dical de todos os se­tores da vida so­cial, en­se­jada pelo ul­tra­ne­o­li­be­ra­lismo co­man­dado por Paulo Guedes.

O mo­mento não é de pas­ma­ceira eterna; é de forte ins­ta­bi­li­dade, que tem a ver com eco­nomia, po­lí­tica, so­ci­e­dade, com a crise geral que se re­produz e não se su­pera.

Te­remos pelo Brasil, num fu­turo pró­ximo, um nível mais agudo de en­fren­ta­mento contra este modo de ar­ti­cu­lação de di­fe­rentes mo­vi­mentos de mer­can­ti­li­zação, quer seja do tra­balho como se vê no recuo da pro­teção do em­prego, dos di­reitos tra­ba­lhistas, da pre­vi­dência; na mer­can­ti­li­zação das terras ur­banas, com se­gre­gação es­pa­cial, gen­tri­fi­cação, agu­di­zação da re­pressão dos se­tores po­pu­lares das pe­ri­fe­rias; na mul­ti­pli­cação do tipo de tra­gédia de Pa­rai­só­polis, tendo a PM como ponta de lança deste pro­cesso de re­pressão/mer­can­ti­li­zação ter­ri­to­rial; na mer­can­ti­li­zação das terras ru­rais, em es­pe­cial com o avanço do agro­ne­gócio e da mi­ne­ração ilegal, in­clu­sive sobre re­servas e terras in­dí­genas, e uma ameaça ao meio am­bi­ente que au­menta e se torna mais ir­re­ver­sível a cada dia.

Por fim, toda essa mer­can­ti­li­zação se liga pro­fun­da­mente ao ren­tismo e à fi­nan­cei­ri­zação, através do en­di­vi­da­mento das fa­mí­lias junto aos bancos e con­cen­tração cada vez maior de renda, o que es­ti­mula o au­mento das dí­vidas das fa­mí­lias – que não cessa, só se apro­funda, apesar de ter sido mi­ti­gado pela li­be­ração de FGTS, o que por sua vez tem custo, li­mites, pois não será pos­sível re­pro­duzir in­de­fi­ni­da­mente…

Temos ainda uma mer­can­ti­li­zação que se vê na Re­forma da Pre­vi­dência, nas pou­panças, na in­for­ma­li­dade do tra­balho, tudo con­ver­gindo em múl­ti­plas formas de mer­can­ti­li­zação da vida. Isso es­ti­mu­lará res­postas mas­sivas e di­versas. E não te­remos res­postas se­to­riais, como se viu no pas­sado. De­vemos ver algo muito pa­re­cido com o pro­cesso chi­leno, com des­con­ten­ta­mento la­tente na base da so­ci­e­dade, que se trans­forma em in­sur­gência ple­beia de es­cala na­ci­onal contra o go­verno a partir do au­mento da pas­sagem do metrô em San­tiago, a exemplo do que se viu em 2013 com a pas­sagem do ônibus em São Paulo. Al­guma coisa pa­re­cida com isso pode de­satar uma re­volta geral.

Eu não des­car­taria que este tipo de cen­telha venha de lu­gares não ima­gi­nados, como o setor de trans­portes, ro­do­viá­rios, ca­mi­nho­neiros… Afinal, ne­nhuma das ra­zões da greve dos ca­mi­nho­neiros de 2017 foi re­al­mente su­pe­rada ou en­fren­tada pelo atual go­verno, por mais que haja afi­ni­dade po­lí­tica e ide­o­ló­gica entre eles. Es­tamos num barril de pól­vora.

http://www.correiocidadania.com.br/34-artigos/manchete/13989-2019-o-silencio-que-precede-a-explosao-estamos-num-barril-de-polvora

Responda