Lições de uma derrota amarga

RICARDO ALVAREZ – Abertas as urnas nas eleições de 2016 constatou-se o óbvio: crescimento do conservadorismo e do fundamentalismo (por vezes a mesma coisa), derrocada do PT, vitórias importantes do PSDB e da direita, votos brancos e nulos em profusão, abstenção em alta e desinteresse de parcelas significativas do eleitorado pelo pleito. Sem querer minimizar a intensidade do tombo das esquerdas e das posições mais progressistas é preciso lamber feridas e projetar nossos caminhos em outras bases. Eis o desafio.

As eleições 2016 deixaram marcas profundas na sociedade brasileira. É indiscutível que experimentamos no Brasil um crescimento da direita, do conservadorismo e até de um fascismo desavergonhado. O que há de novo no cenário que desencadeou esta marcha?

Antes de responder esta questão, recuemos na história recente do Brasil.

A direita sempre teve medo de rua. Predominava a concepção de que estimular o movimento de massas, sem líderes populares, é um perigo real para a ordem institucional. Os inúmeros golpes ao longo do século XX, em especial o de 1964, mostram que as quarteladas se constituam num recurso extremo em momentos que as coisas saiam do seu controle justamente quando as massas se movimentavam.

A direita aprendeu a se articular nos corredores acarpetados do poder, no interior das máquinas administrativas, com o grande capital auxiliando seus negócios e sendo auxiliado por ele, comandando as estruturas partidárias de duas dezenas de legendas que servem às necessidades a partir dos arranjos regionais e estaduais. É o fazer política por cima sem o protagonismo popular.

A direita sempre contou com forte apoio da grande mídia que nunca negou farta ajuda quando solicitado, em especial a televisiva, pelo alcance de sua audiência e popularidade. Embora os grandes meios disputassem mercado e desenvolvessem uma concorrência acirrada, suas editorias mantinham um alinhamento ideológico com o neoliberalismo e seus representantes na estrutura política institucional.

O parlamento, em especial a Câmara e o Senado Federal, garantiram uma maioria de direita, cujos alinhamentos oscilavam conforme as ofertas. O PMDB é o agenciador maior das negociatas e distribuidor reconhecido das benesses.

O grande capital, por sua vez, oferecia os banquetes, brindes, apoio econômico, enfim, toda uma sorte de recursos que sustentavam a estrutura partidária e seus caciques nas disputas eleitorais e na manutenção dos seus interesses nos interregnos das eleições (leis, decretos, projetos, licitações, etc.).

As esquerdas se reorganizam na redemocratização

Em paralelo a esta estrutura podre e viciada, surgiu uma movimentação política a partir de baixo, apoiada nos movimentos sociais e na luta contra a ditadura militar, galvanizada pelo PT. A ideia era fazer diferente.

O partido animou militantes, enfrentou mentiras, apanhava da grande mídia mas consolidava seu programa de mudanças enfrentando o grande capital. Foi se consolidando entre os trabalhadores e jovens. Sua energia era mobilizadora.

O partido cresceu e foi se moldando às regras que deveria combater. Ganhou a presidência e desencadeou uma operação de conquista de governabilidade que envolvia alianças e acordos com as oligárquicas estruturas já calcificadas e esclerosadas. O presidencialismo de coalizão se converteu na principal tática de conquista de hegemonia.

Se de um lado a governabilidade se construía a partir de métodos questionáveis para uma proposta de esquerda, de outro, o lastro político do governo se apoiava inteiramente na popularidade de Lula. Nestes termos, o rebaixamento programático foi inevitável.

O PT foi afundando em alianças que beiravam o trágico. Boa parte do governo Temer, inclusive ele, estavam nos governos do PT. Difícil agora falar agora em traição.

Nenhuma reforma estrutural nos serviços básicos. A massa mais pobre, que teve acesso ao consumo, pouco percebeu que foram políticas compensatórias de curto fôlego que deram esta condição de acesso ao mercado. A queda de Dilma não sofreu resistência social significativa.

O desfecho foi o pior possível. Uma Câmara predominantemente corrupta, dirigida por um presidente do mesmo calibre (hoje preso) num espetáculo deprimente, decidiu pela abertura de processo de impeachment sob os olhares atônitos dos democratas.

O desfecho, todos sabemos.

O que há de novo no Front?

Considero que o saldo deste processo é muito mais duro para a esquerda do que a somatória das derrotas eleitorais. Há uma nova direita nas ruas, nas redes sociais, nos locais de trabalho, bem articulada, agindo on line, fazendo a disputa de ideias e ideais. Eis o que há de novo.

Enquanto a velha esquerda se perdia em tenebrosas transações com vistas a garantir governabilidade com a velha direita, uma massa de gente foi para as ruas movida pelo apelo midiático do combate à corrupção. Uma vez consolidada esta pauta, outras se irradiaram, no campo dos costumes, da família e das relações internacionais, retrógradas e conservadoras na sua totalidade. Dentre os velhos, o PT foi o que mais perdeu.

Esta nova direita ocupou espaço na sociedade levantando bandeiras separatistas, chauvinistas, fascistas, racistas, misóginas, agressivas, seletivas e conservadoras sem o menor pudor. Não se envergonham em propagandear que pobres tem privilégios que devem ser cortados e que os ricos acumularam por seu esforço pessoal. Menos impostos e serviços públicos. Menos Estado.

Renegam a história do Brasil e a escravidão, ressaltam que programas sociais geram “vagabundos e preguiçosos”, mostram indignação com a diversidade social e desejam a reconstituição do “White Power” perdido, segundo eles, com os governos do PT.

A velha direita tinha medo de dizer que era de direita, a nova não. Os dois últimos anos foram marcantes neste sentido.

Houve uma mudança de postura que ganhou capilaridade social e gerou novas lideranças. MBL, Vem Pra Rua, grupos de discussão, ativistas digitais, ações pontuais de ataque à esquerda, geradores de conteúdo para as redes sociais, enfim, há uma infinidade de pessoas que se dispuseram a dedicar parte do seu tempo em defesa de bandeiras segregacionistas e em defesa do capital e da meritocracia.

Os resultados das urnas resultam desta nova configuração. Digamos, inclusive, que o próprio impeachment também.

O que fazer?

Após o desastre consolidado pelas eleições, há alguns caminhos que vão depender de novas movimentações políticas com pautas claras e definidas.

O PT continua sendo um ator importante, porém somente uma mudança de rumos em sua tática e estratégia, com profundidade suficiente, poderia colocar o partido num espectro de esquerda e de mudança social. Creio ser pouco provável que isto aconteça pela lulodependência de que se cercou. Lula é, hoje, sua salvação e seu problema ao mesmo tempo.

A direita, embora dirigida por novos quadros e numa perspectiva mais agressiva de atuação, não tem unidade de ação, ao contrário. O próprio governo Temer, rodeado de representantes das mais arcaicas estruturas de poder, portanto corruptos em sua essência, provoca recuos na nova direita sempre que um de seus membros é citado.

Os movimentos sociais tendem à mobilização em defesa de seus direitos, agora fortemente ameaçados, seja pelas mudanças na aposentadoria, na CLT, na liquidação de patrimônio público ou pela malfadada PEC 241. Este é o caminho central do acúmulo de forças contra a implantação do programa neoliberal e de desestabilização do governo, que apontem para a redemocratização.

A nova esquerda sintetizada na figura do PSOL deve continuar no trabalho de apresentar um programa de contraponto ao “Ponte para o Futuro”, que dialogue com os movimentos sociais, na defesa das riquezas nacionais, nos direitos dos trabalhadores e, principalmente, num programa democrático popular com vistas ao desenvolvimento econômico, na geração de empregos, no combate ao financismo e rentismo, nas reformas estruturais de base, na justiça social, na produção industrial de maior valor agregado e na busca de governabilidade com os de baixo.

A política de frentes está na ordem do dia, fundamentada por programas e projetos comuns que apontem nesta linha.

Outra pauta importante é o enfrentamento da questão da partidarização do poder judiciário e do Ministério Público. Somente a participação popular e a transparência na gestão combinados podem reduzir estes efeitos deletérios no cumprimento de suas funções. É nossa obrigação sustentar este debate aproveitando as trapalhadas e a seletividade explicitas nas ações do grupo especial de Curitiba.

Uma legislação especifica em defesa da democratização dos meios de comunicação pode fazer frente ao megafone de uma nota só, que passa anos verbalizando sempre a mesma linha de pensamento, numa defesa monossilábica do neoliberalismo e suas vertentes.

Por fim, o Fora Temer sintetiza o combate a um governo que desencalhou antigos desejos da elite contra os trabalhadores e colocou em marcha mudanças profundas na proteção social e na precarização do trabalho. Mas ele não se constitui num alvo único na disputa de hegemonia na sociedade. Precisamos também fazer o debate ideológico e programático com a nova direita, que tem se organizado e militado em defesa de suas bandeiras e princípios.

São as duas vertentes que as frentes de esquerda devem combater. A direita se reinventou, cabe a nós fazer o mesmo. Não é pouca coisa, mas é o que se tem que fazer.

Publicado originalmente em: https://espacoacademico.wordpress.com/2016/10/24/licoes-de-uma-derrota-amarga/

One Response to “Lições de uma derrota amarga”

  1. João Luiz Pereira Tavares, Responder

    Enquanto isso… No Sul…

    A esquerda em Curitiba (no Sul) ficou é discutindo CHEIRO CORPORAL sem banho. Tentando DERRUBAR o GRECA!
    Mas Greca ganhou, mesmo assim…

    GRECA e o FEDOR
    [A Política & a Manipulação pela Linguagem,
    em Curitiba. HIPOCRISIA]:

    O Cheiro Corporal:
    É bom ver o político Greca.
    Greca, PMN, é antissentimentalista. Não hipócrita sobre FEDOR. Não se faz de vítima.

    GRECA DISSE QUE QUASE VOMITOU AO COLOCAR UM MENDIGO em seu carro. Morador-rua… ¿E daí? Mendigo não FEDE NÃO???
    ESSA de GRECA, sobre FEDOR, é medida exata de cara não HIPÓCRITA. Ouvido para diálogo, seu antissentimentalismo/humor sardônico, transformou a paisagem política de Curitiba.

    Um ANIMAL fica dias sem banho e não fede. O HUMANO já 1 dia sem banho é um FEDOR danado.

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