Existe um presidente por trás das redes sociais de nosso presidente?

VICTOR PICCHI GANDIN – Durante o Carnaval, me deparei com um vídeo no Youtube, composto por uma marchinha de Carnaval “dedicada” a Caetano Veloso e Daniela Mercury. “Chupa!”, dizia o cantor da música que em seu primeiro verso lembra a melodia do jingle de Eymael. Tratava-se de uma crítica ao uso de recursos da Lei Rouanet que poderia ser feita por qualquer internauta. Porém, o que chamou a atenção foi o fato de que o vídeo havia sido publicado por “Jair Bolsonaro”.

Ao ver que o conteúdo deste canal é composto por vídeos retirados de outros canais e meios de comunicação, além de trechos em baixa resolução diretamente selecionados a adversários específicos, sem falar nos títulos sensacionalistas como “BOLSONARO ESCOVA MARIA DO ROSÁRIO”, “BOLSONARO PRESIDENTE: IMPERDÍVEL” e “BOLSONARO TORTURA GENOINO NO PLENÁRIO”, fiquei em dúvida se este canal do Youtube era o oficial do atual presidente da República.

Ao entrar no site de Bolsonaro, pude comprovar no link da seção “Siga nossas redes”: este canal do Youtube não é um canal de notícias enviesadas e sensacionalistas como tantos outros, e sim o canal oficial do próprio presidente do Brasil, mantido no ar desde junho de 2009, quando ainda era deputado. O mais chocante, porém, estava para ser postado em outra rede social, o Twitter.

Após ser vaiado em alguns blocos de de rua, que tradicionalmente fazem brincadeiras e críticas com conotação política, Bolsonaro resolveu postar em seu Twitter, sem censura alguma, um vídeo obsceno cujo conteúdo já foi suficientemente descrito em diversos sites de notícias. De imediato, não havia no tuíte alerta da rede sobre seu conteúdo. Cerca de duas horas depois, o vídeo foi considerado pelo Twitter como “mídia que pode conter material sensível”. Desta maneira, sua thumbnail (miniatura pausada em forma de imagem) parou de ser mostrada automaticamente na rede social, mas o vídeo continuou podendo ser assistido facilmente por todos aqueles que optam por clicar em “Ver”, mesmo visitantes não cadastrados nesta rede social.

A justificativa do presidente em relação à postagem, ignorando as consequências da divulgação destas imagens captadas em público, foi a de “expor a verdade para a população”. Segundo Bolsonaro, este caso isolado realizado por dois homens que ele escolheu para generalizar e afetar a imagem do Carnaval, seu novo “adversário”, representa o “que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro”.

Graças à postagem do presidente, algo que antes ficaria restrito a centenas de pessoas nos mais obscuros grupos de Whatsapp, talvez a milhares devido ao compartilhamento de outros usuários, acabou se tornando um dos vídeos mais comentados do mundo e atrapalhando a imagem do Brasil, país que ele próprio governa, perante o exterior. Simplesmente três hashtags ligadas à postagem de Bolsonaro, inclusive “#goldenshowerpresident” – assim, em inglês -, viraram os três “trending topics”, os assuntos mais comentados do Twitter, a nível mundial.

A busca pelo termo “golden shower”, que praticamente não vinha sendo pesquisado no Google na última semana, segundo a ferramenta Google Trends, disparou nos dias 5 e 6 de março a partir da postagem de Bolsonaro. O vídeo virou o assunto do dia e muitos que não conheciam esta “prática sexual” passaram a conhecê-la. O senador Major Olímpio foi além: “Acho que tem mais praticantes do que pessoas que conhecem a terminologia”, afirmou aos risos ao jornal Folha de S. Paulo.

Apoiadores do presidente argumentaram que as pessoas estavam indignadas com a postagem do vídeo e não com seu conteúdo. A deputada do PSL Carla Zambelli tentou relativizar: “Se uma mulher se ajoelhasse para um homem heterossexual e este fizesse xixi na cabeça dela, as feminazis diriam que se trata de subjugar a mulher. Sendo um gay, pode??”. Porém, ninguém estava defendendo a realização de tais atos em público, muito pelo contrário. Os brasileiros acordaram espantados com a excessiva liberalização ocorrida neste bloco carnavalesco e também com o compartilhamento do vídeo por parte de uma escolha do presidente da Nação.

Conforme destacou a Folha, mesmo apoiadores de Bolsonaro criticaram-no pela publicação. Kim Kataguiri (DEM) afirmou que a publicação é “incompatível com a postura de um presidente, ainda mais de direita” e a classificou como “bola fora”. Lauro Jardim, de O Globo, afirmou que o entorno de Jair Bolsonaro ficou constrangido e que dentre seu grupo político “ninguém sabe o que fazer para frear essa compulsão por falar demais nas redes sociais e causar problemas para si próprio”. O caso foi parar até na imprensa internacional. “Faremos todos os esforços para mantê-lo digno”, advertiu o New York Times na abertura de uma matéria.

O presidente não ligou, manteve a publicação tal como estava e aproveitou a repercussão para fazer um novo tuíte: “O que é golden shower?”. Houve questionamentos sobre possíveis sanções e até defesas de um pedido de impeachment. A cientista política Helcimara Telles destacou a legislação que versa sobre crimes contra a probidade na administração. Miguel Reale Júnior, um dos propositores da denúncia que levou ao impeachment de Dilma Rousseff (PT), afirmou que o vídeo configura quebra do decoro e pode justificar um novo processo de impeachment. Ele ainda ressaltou, segundo a redação do site da revista Istoé, que, de acordo com o Código Penal, praticar ato obsceno em lugar público é considerado menos grave do que sua divulgação, ato cometido por Bolsonaro.

O conteúdo do vídeo foi considerado vulgar e sua divulgação por parte do Presidente da República superdimensionou sua exposição. Sem seu post, o conteúdo não chegaria a milhões de pessoas – como já chegou -, nem ultrapassaria as fronteiras do Brasil. A publicação em rede social e aberta fez com que até crianças tivessem acesso ao vídeo, como a neta do jornalista Fábio Pannunzio (Band).

Ao contrário da acusação feita por alguns apoiadores de Bolsonaro, pessoas que pulam Carnaval, manifestação cultural de longa data, não consideraram correto o conteúdo do vídeo. Trata-se de um caso isolado, ainda que outros excessos no Carnaval se repitam por aqui e por ali. É fato, porém, que o episódio não representa o evento como um todo. Durante a campanha eleitoral, bolsonaristas criticaram veementemente a divulgação de casos de violência envolvendo eleitores do então candidato Bolsonaro, afirmando que se tratavam de “casos isolados”. Por conveniência, para estas pessoas esta justificativa não vale mais. Agora se pode generalizar.

A publicação foi uma espécie de “vingança” do presidente, após ser debochado em blocos de Carnaval, por exemplo naquele que cantou, em forma de paródia de uma marchinha, “Doutor, eu não me engano, o Bolsonaro é miliciano”. Muitos tem considerado tal publicação como estratégica, seja em direção a atacar os blocos de carnaval de modo geral ou como forma de desviar a atenção que seria voltada a outros temas, como a Reforma da Previdência ou outros problemas do Brasil, neste momento em que o Carnaval acabou e todos voltam a prestar mais atenção nos atos do governo.

Intencional ou não, estratégico ou não, o que fica evidente é a falta de responsabilidade do presidente da República. Tentando obter algum ganho pessoal, sendo aquele que “denuncia” as mazelas ocorridas sob seu próprio governo, Bolsonaro não pensou (nem antes nem depois) nas consequências da divulgação irrestrita deste vídeo. Faltou um mínimo de seriedade e decoro em relação ao cargo, afinal quem está por trás destas contas das redes sociais não é um desconhecido, alguém que pode falar o que bem entender sem virar “vitrine”, um adolescente inconsequente nem mesmo um candidato em campanha. A campanha eleitoral, com sua parcela de “destruição” dos adversários em parte até tolerável durante este período, já terminou. Bolsonaro já é presidente. Mesmo atrás de seu computador ou celular, este deve se comportar com compostura em relação ao cargo que ocupa.

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