Portugal: Quando a direita tira as luvas

Francisco Louçã – Um novo partido da direita portuguesa (batizado como “a Aliança”) foi lançado em Évora e, no mesmo fim de semana, os três partidos da direita espanhola se manifestaram juntos em Madrid, algo que aconteceu pela primeira vez.

Mera coincidência, a não ser que exista temas em comum e, sobretudo, uma atitude que os congrega: empurrada pelos ventos estadunidenses, surge uma direita orgulhosa e que se assume. A direita está tirando as luvas e, como nos tempos de guerra, já não limpa as escopetas, saltando qualquer fronteira com a extrema direita. Mas, ao contrário dos tradicionais discursos do passado recente, ela agora é orgulhosa dos seus pergaminhos e mostra uma radicalidade que só se conhecia na memória distante.

Não é que tenha novas bandeiras. Um curioso filme recente – Vice, de Adam McKay – recorda a ascensão dos neoconservadores em tempos do segundo Bush, tutelados pelo vice-presidente Dick Cheney, documentando seu esforço para recuperar a ambição imperial, em disfarçar a redução dos impostos sobre as fortuna (é encantador saber como decidiram atacar os impostos sobre heranças que alcançam mais de dois milhões de dólares chamando-os de “taxa sobre os mortos”), que teve eco em Portugal na linguagem do CDS (Centro Democrático Social, principal partido da direita lusa), no uso da religiosidade como arma política e na promoção da desigualdade social.

Depois disso, e agora com Trump, há pouco de novidade no planeta. São os mesmos financiadores, alguns personagens continuam na nova temporada e o discurso soa como um refrão. Mas a recapitulação dos tons conservadores ocorre com outra potencialidade tecnológica e com mais incertezas vividas depois de uma década de destruição causada pela austeridade. Portanto, com mais possibilidades de hegemonia, e é por isso que se expande na Europa e no quintal latino-americano. Neste mundo, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. O problema é que se transforma permanecendo igual. A ascensão da extrema direita espanhola, no caldo de cultura do franquismo, do ódio aos direitos das mulheres e dos discursos anti catalão e anti imigrantes, pode fazer dela o fiel da balança para o próximo governo.

O mesmo com respeito às eleições europeias de maio, quando essa extrema direita poderá formar um dos maiores grupos. Caso se alie ao presidente húngaro Viktor Orban e seus similares, ela poderá arrastar toda a direita tradicional atrás de si. É o que já se nota, embora mais como alarde que em termos de conteúdo: sem grande esforço, o CDS sofre agora um período de ressentimento contra a Comissão Europeia – sempre hiperbólico, como a casa gosta. Ao mesmo tempo, Sande Lemos se descobre um crítico enraivecido e que quer direito de veto aos parlamentos nacionais, tutti quanti, tema que em dias normais teria envergonhado seu europeísmo translúcido. Paulo Rangel dispara em todas as direções, mais atento ao âmbito nacional que ao continental, onde nada tem a agregar. Em todo caso, uns e outros seguem o flautista de Hamelin, inclusive alguns esperam voltar ao seu pacato institucionalismo assim que terminem as eleições, e este negócio de ter que conseguir os votos. Logo veremos se encontram o caminho. A nova cultura da direita é, portanto, sem papas na língua.

O congresso de nascimento da Aliança não surpreende, pois navega com essa brisa. Parece muito, mas é só algo. E, se alguém antecipou uma direitização no aplauso embargado daquelas pessoas ao senhor que propôs a ideia venturina do castigo bíblico pela castração de alguns certos sujeitos, também convém uma visão em outro sentido. Seria mero equívoco esse arroubo pelo programa que foi apresentado, pois o fato é mais revelador de um curioso episódio psicanalítico que de uma agenda política. O que importa nesse programa é mais a crueza da agenda liberal: acabar com o Estado social, ou com as prestações de serviços universais, cobrar pela saúde e pela educação públicas, levar a classe média e os ricos para o mundo privado, deixar os pobres à misericórdia, como a Daniel Blake (em referência ao personagem-título do famoso filme de Ken Loach, de 2016). O sinal dos tempos é este, a liberalização já não se disfarça de justiça, está orgulhosa de ser injustiça, e até deseja que os descamisados aceitem sua miséria.

Como em Madrid, a direita reunida em Évora imita seus antepassados, já tirou as luvas e espera convencer mais seguidores. A questão não é, portanto, se este novo partido terá sucesso. Não terá. É Santana demais. No estilo, na ação, na representação. É memória demais, e não há duas oportunidades para causar a primeira boa impressão. A questão é se conseguirá pressionar o resto da direita a sintonizar a mesma onda. É para isso que serve e que está desejosa de servir. Bem-vindos a 2019.

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/Portugal-Quando-a-direita-tira-as-luvas/6/43320

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