Argentina: Massiva marcha dos movimentos sociais contra a fome e os aumentos

Página/12 – Uma multidão marchou “contra a fome e os aumentos” das tarifas de serviços básicos (água, luz, gás, transportes), em mobilização convocada pelos movimentos sociais e organizações sindicais. Em frente ao edifício do Ministério de Desenvolvimento Social, pediram por mais alimentos para os restaurantes populares e aumentos dos salários sociais e da Contribuição Universal por Filho.

Nesta quarta-feira (13/2), Buenos Aires foi testemunha de uma gigantesca marcha pelo Centro, que terminou em manifestação em frente ao escritório da ministra de Desenvolvimento Social, Carolina Stanley, e que também foi replicada em diferentes províncias do país, lideradas pelos movimentos populares que reclamam do governo uma maior atuação para enfrentar a crítica situação social que o país vive.

“Há casos dramáticos, difíceis de contar. Milhares de pequenas empresas e comércios estão fechando as portas. As tarifas de serviços básicos (água, luz, gás transportes) se tornaram impossíveis de pagar até para a classe média, imagina para os companheiros dos bairros da periferia… A única saída que nos resta é fazer ligações de luz clandestinas, e isso nos coloca em um lugar de marginalidade”, acusou um dos porta-vozes da CTEP (Confederação dos Trabalhadores da Economia Popular), Esteban Castro, durante o ato em frente à sede do Ministério.

A manifestação foi pautada pela consigna “contra a fome e os aumentos”. Na véspera, a ministra Stanley, que acusou os movimentos de usar “métodos extorsivos”, admitiu que o índice de pobreza medido pelo INDEC (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos) voltará a subir em março.

O protesto foi convocado pela CTEP e outras organizações, como Bairros de Pé, Corrente Classista e Combativa, Frente Darío Santillán e Frente de Organizações em Luta. São um conjunto de organizações sociais que hoje concentram a maior capacidade de mobilização, e também de negociação com o governo, através da Mesa de Diálogo, uma instância aberta no começo da gestão macrista, com a intermediação da Igreja Católica, e que funciona mais ou menos espasmodicamente. Foi a partir dessas negociações, por exemplo, que o Ministério de Desenvolvimento Social motorizou o salário social complementar, para substituir os programas de emprego do governo anterior, ou decidiu dar uma bolsa extra, no final de 2018, aos beneficiários dos programas sociais, embora tenha excluído os aposentados da medida.

As organizações demonstraram que a situação é urgente e que o Estado deve reforçar o envio de alimentos aos restaurantes populares, pois a fome é um problema que já está instalado no país. Nesse sentido, pediram também um aumento do salário social complementar, que ficou estagnado em 6 mil pesos (cerca de 590 reais), e também da Contribuição Universal por Filho (programa social argentino similar ao Bolsa Família, criado durante o kirchnerismo).

Também reclamaram pelas propostas incluídas em quatro projetos de lei apresentados ao Congresso que foram obstruídos pela bancada governista, que tratam sobre temas como segurança alimentar, infraestrutura social, agricultura familiar e tratamento humanizado para dependentes químicos.

“Foi um ano muito ruim. O resultado de três anos desta política econômica já é visível: houve uma inflação de 50% sobre os preços dos alimentos, enquanto a Contribuição Universal por Filho foi recomposta somente em 30%. Isso significa uma perda de 20 pontos na renda dos lares mais vulneráveis. Ou seja, as pessoas estão comprando agora apenas um quarto do que podiam comprar há um ano. Essa realidade é horrível. O governo não pode agir como quem não espera que não haja protestos. As pessoas não vão ficar em suas casas só observando como se destrói os empregos, como são impedidas de sonhar com um trabalho, e de ter uma casa e um prato de comida todos os dias”, resumiu Daniel Menéndez, da organização Bairros de Pé.

Dina Sánchez, uma das líderes da Frente Darío Santillán, mostrou que as organizações vêm “construindo alternativas para melhorar a qualidade de vida, mas isso não basta, e o Estado se mostra ausente”. A porta-voz agregou que a ministra de Desenvolvimento Social “não tem problemas em dizer que a pobreza continuará crescendo. Nos bairros da periferia, a situação é caótica, não dá para aguentar mais”.

A marcha saiu de três pontos da Cidade de Buenos Aires – do Congresso, da esquina de Santa Fé com Avenida 9 de Julio, e da esquina de Carlos Calvo com Avenida 9 de Julio – para confluir em frente ao edifício do Ministério, onde houve o ato de encerramento. A presença dos dirigentes sindicais Roberto Baradel (docentes), Hugo Godoy (empresas estatais), Juan Carlos Schmid (transportes) e Héctor Amichetti (gráficos) mostrou a dimensão da adesão sindical à marcha. Também esteve presente Eduardo Murúa, do Movimento Nacional de Empresas Recuperadas, e do Movimento Missionários de Francisco.

“A importância do ato de hoje é o marco de unidade em que se dá, a partir de propostas concretas que são constituídas e construídas em cada um dos nossos territórios”, disse Omar Giuliani, presidente da Federação Nacional Territorial (FENAT), que também ressaltou o papel das organizações sociais: “nós somos os que transparentam aquilo que cotidianamente realizamos, para suprir a ausência de um Estado que não está presente a serviço dos trabalhadores e das trabalhadoras, mas que sim está presente para pagar o FMI (Fundo Monetário Internacional, que outorgou um empréstimo milionário à Argentina recentemente)”.

Pablo Spataro, secretário-geral da CTA Capital (Confederação dos Trabalhadores da Argentina, filial capital), planteou que “milhares de trabalhadores e trabalhadoras de todo o país tomaram as ruas para denunciar o modelo de desemprego e pobreza que o governo nacional vem impulsando. Repudiamos suas políticas econômicas e suas consequências”.

Por sua parte, o governo tentou diminuir a importância dos protestos, com os argumentos habituais. Os porta-vozes do Ministério de Desenvolvimento Social afirmaram que a marcha foi “um fracasso”, e que veio “menos gente” que o prometido pelas organizações. Entretanto, as organizações insistiram em destacar o caráter massivo da mobilização, informando uma cifra de 200 mil pessoas presentes somente em Buenos Aires, e um milhão em todos o país.

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/Argentina-massiva-marcha-dos-movimentos-sociais-contra-a-fome-e-os-aumentos/6/43270

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